15 maio 2007

Carta ao ombudsman

Prezado Mário Magalhães,

De antemão, desculpo-me por eventuais palavras que se façam mais fortes do que o recomendado para o espaço. No entanto, não posso calar diante da enorme repulsa causada por uma reportagem publicada na página C5 da FSP de 15/05/2007 sob o nada imparcial título “2 são baleados em arrastão de torcedores”.

Vejamos:

Fui uma das vítimas de tudo o que aconteceu na noite de 13 de maio, domingo, na volta deste grupo de torcedores palmeirenses do Rio para São Paulo.

Voltei do jogo no Maracanã em um dos ônibus do comboio que foi atacado na Baixada Fluminense por elementos que supostamente seriam torcedores do Flamengo, rival do Palmeiras na ocasião.

Atacados sim, versão que foi noticiada em jornais como o Diário de S. Paulo e o Agora, do mesmo grupo que esta Folha, entre outros veículos de comunicação.

Fato é que o jornal, em um preocupante exercício de imprecisão, parcialidade e inadequação aos princípios básicos do jornalismo, toma por conseqüência o que é causa.

A reportagem afirma, textualmente, que os tiros que feriram um torcedor e o motorista de um dos ônibus ocorreram durante o alegado arrastão. “Na confusão, duas pessoas, que estavam dentro de um dos ônibus, foram feridas, de acordo com a Polícia Rodoviária Federal”.

Confusão? Bela palavra para quem não sabe o que escrever.

O tal arrastão foi uma versão levantada de maneira precipitada por alguns órgãos de imprensa à luz dos acontecimentos, ainda no domingo à noite e nas primeiras horas de segunda-feira.

A situação, no entanto, foi devidamente esclarecida na própria segunda e, especialmente, nos jornais impressos de terça (cito ainda Diário de S. Paulo e Agora como exemplos).

Impressiona o fato de a Folha ter apenas reproduzido esta versão quando teve todo um dia (a segunda) para recuperar a história.

Teria sido preguiça?

Não creio.

Aposto mais em má intenção, a mesma que tem levado tantos bons jornalistas a fazer um jornalismo quase panfletário na luta contra as torcidas organizadas.

Mais do que colocar o outro lado da história, levanto alguns questionamentos acerca da matéria em questão:

1. FSP: “Por volta das 21h, um grupo de palmeirenses fechou a rodovia...”
O ocorrido se deu antes mesmo de 20h, por volta de 19h50.

2. FSP: “A ação levou pânico aos motoristas e passageiros que passavam pela via e deu início a um tiroteio”.
Eis aqui o trecho mais preocupante, pois distorce o ocorrido. Fato é que os ônibus foram, segundo reconhece a própria PRF, alvejados antes do pedágio. Depois do alegado arrastão, nada houve. Não se ouviu um único tiro. A própria PRF, por sinal, reconhece não ter encontrado qualquer tipo de armamento em poder dos torcedores palmeirenses. Assim sendo, pergunto: quem participou do tiroteio?

Tal questão é solenemente ignorada pelo texto, que sequer se preocupa em apontar quem foram os responsáveis pelos disparos. Simplesmente cita um tiroteio. Quem atirou? Pouco importa para a Folha.

3. FSP: “Havia integrantes da TUP (Torcida Uniformizada do Palmeiras) e da Mancha Verde nos veículos”.
Não só. Havia ainda torcedores da Acadêmicos da Savóia, uma terceira entidade, cujo ônibus foi também alvejado.

4. FSP: “Os policiais foram acionados por um oficial do Exército que passava pela rodovia”.
Um dia depois, a FSP ‘comprou’ a mesma versão estampada por emissoras de TV e sites na manhã de segunda-feira. Teria sido preguiça? Ou má vontade mesmo?

5. FSP: “De acordo com a polícia, cerca de 600 torcedores foram detidos”.
Um único torcedor, com um mandado de prisão por falta de pagamento de pensão judicial, foi preso. Os demais passaram por uma averiguação, à beira da estrada e pouco à frente do pedágio, sendo todos liberados. Não creio que o termo ‘detidos’ seja o mais adequado, portanto.

São apenas alguns pontos que merecem ser questionados. Mas o que mais me impressiona é a total parcialidade da reportagem, que não se preocupou, em momento algum, com o outro lado.

Ouvir o outro lado?

Para quê?

Os protagonistas da história (os supostos responsáveis pelo arrastão) sequer foram ouvidos. Relegou-se a eles um papel secundário, o de marginais que não merecem a palavra. Bastou uma análise preliminar da polícia para fechar a matéria (claro, com uma foto que evidencia quem são os culpados).
“Para que ouvir esses caras da Mancha Verde?” é o que pode ter pensado o jornalista, provavelmente cansado dos tantos incidentes envolvendo esta e outras facções.

Pluralismo da Folha? Ah, que anacrônico...

Já existe a predisposição de não dar voz a estas pessoas. Mais fácil julgá-las e condená-las. Em vez de querer saber o que aconteceu, crava-se que houve um arrastão e ponto final.

Não interessa contar toda a perseguição de que foram vítimas estes torcedores, seja aquela da polícia, no Rio e no Maracanã, seja aquela protagonizada por carros na via Dutra.

Não interessa saber as ameaças feitas pelos próprios policiais cariocas, ainda no Rio.

De que interessa saber se alguém disparou dezenas de tiros do alto de um viaduto?

De que vale noticiar que torcedores viajaram deitados no chão de um ônibus enquanto tiros vinham de carros ao lado?

O que importa se duas pessoas foram baleadas e que uma encontra-se em estado grave?

A pergunta lógica seria: “Quem baleou o torcedor que está no hospital?”

Não para a FSP, que prefere atribuir tudo a um suposto arrastão no pedágio.

Fácil assim.

“Torcida organizada é coisa de bandido”. Eis aí o raciocínio que pauta a conduta de muitos jornalistas.

Aqueles que procuraram investigar souberam que não havia nenhuma arma em poder dos palmeirenses e que os passageiros destes 12 ônibus foram vítimas de uma perseguição com tiros durante alguns quilômetros antes da parada no pedágio.

Não à toa, um dos veículos foi alvejado 11 vezes. Não só pelas laterais, mas também pelo alto, o que evidencia os tiros disparados do alto de um viaduto ou passarela.

Houve alguma perícia da Polícia Rodoviária Federal nos ônibus atingidos pelos projéteis?

Não, a Folha não se preocupou em investigar.

Tampouco com o fato de que o suposto arrastão nada mais foi que a tentativa de estes torcedores localizarem o carro em que estavam os elementos responsáveis pelos tiros.

O veículo foi localizado e bateu em retirada, momento em que houve pânico nas imediações do pedágio.

A Folha se preocupou com isso?

Não.

Melhor falar em arrastão.

Admito que ônibus parados e pessoas uniformizadas correndo de um lado para o outro da pista seja um cenário digno de arrastão. Faz sentido, ao menos em um primeiro momento.

Mas a própria Polícia Rodoviária Federal já descartou essa hipótese.

A Folha se preocupou com isso?

Não. Por que faria isso?

É mais fácil tratar esse povo como bandidos.

Belo exemplo de jornalismo.

Como belo país é este.

Um país em que pessoas levam tiros na estrada que liga as duas principais cidades do país e ainda estampam as páginas dos jornais do dia seguinte como se fossem bandidos...

A vida segue.

***


O texto acima foi enviado hoje, por e-mail, ao ombudsman da Folha de S. Paulo. Fico na expectativa de uma resposta decente.

19 comentários:

Rodrigo disse...

Tb estou na espera de uma resposta.

André disse...

Folha de S. Paulo (grupo Folha) Veja (editora Abril)
TV Globo e jornal O Globo (organizações Globo)
O pior da imprensa no país!
Lamentável!

André disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André disse...

Isso quando não aparece o Flavio Prado falando das torcidas organizadas... esse aí é caso perdido!!!!

Cacá disse...

Mandou bem no texto que vc mandou.. vamos aguardar, agora, né?

Craudio disse...

Eu espero uma retratação da Folha desde 2002, sobre uma mentira publicada - quase que nominalmente - e relacionada a mim.

O fato é: quem vai ao estádio é vagabundo, ladrão, bandido e assassino.

E hoje escutei nego já reproduzindo o tal arrastão. Veja você o poder que tem uma mentira. Vale mais que mil verdades. Consegui levantar uma dúvida nos acusadores quando disse que um amigo quase morreu.

Só assim as pessoas se chocam. Mas só um pouquinho.

Por isso que eu odeio a imprensa suja e gostaria muito que cada um desses veículos citados pelo André simplesmente fechassem. Que morram de fome os jornalistas que compactuam com esse jornalismo de esgoto!

No mais:

CHUPA, VITOR!
CRIA UM BLOG, LUIGI!
VOLTA PRO ORKUT, BARNESCHI!

filipe disse...

Bela carta.

Se os caras não responderem, para nós será mais uma prova de que o raciocínio "é tudo bandido" está como câncer nesse esgoto.

E se responderem, será para desviar o foco. Aguardemos.

Abraço

mancha z/s disse...

mandou bem mano..... alkguem precisa fazer alguma coisa contra essa imprensa suja!!!!!!

MANCHA IPIRANGA disse...

A IMPRENSA DESTE PAIS FEDE!!!!

Danilo disse...

Taddei,

Forget it!!! Eles jamais irão responder... são mediocres e são meros "jornaleiros", afinal trabalham para vender o jornal e não para fazer jornalismo, de acordo com o que estudaram na universidade...

Lamentável essa fdp... ops, fsp.

Flw,

Danilo

Arthur Virgílio disse...

Isso que a Folha é considerado um dos melhores periódicos do País. Exercer o direito de ouvir os dois lados de um fato é princípio básico do jornalismo.

Barneschi disse...

Para mudar um pouco o assunto: ingressos já à venda para o clássico contra a sub-raça, dia 27, às 16h, no antro.

darkness disse...

te cuida, Barneschi! larga mão disso!

luiz - uberlândia disse...

agradeço ao Grande Arquiteto do Universo por nada de grave (afora o indizível constrangimento que certamente vivera) ter acontecido com você, meu grande amigo.

te cuida.

abraços,

Luiz, Uberlândia.

Barneschi disse...

Grande Luiz!

Apareça mais. Teus comentários são sempre bem-vindos.

Abraços e obrigado

vitor disse...

rodrigo, pensei q vc tinha ido de carro, passar o fds...nem imaginei q vc estaria em um dos onibus. agora sei q vc, o japa e mtos outros do centro-sul estavam nos onibus...graças a Deus todos vcs estão bem.

mancha ipiranga, só a imprensa???

craudio, vc é viado, e provas não faltam, portanto, CHUPA.

danilo, é o buraquinho??? q trocadilho rídiculo.

filipe, não dá certo pq aqui as lideranças se falam por telefone pra marcar certas coisas, mas não sentam pra questionar sobre seus direitos...q líder de organizada, perderia meia hr pra ler um livro de leis??? no mínimo o código do torcedor.
torcida aqui, na minha opinião, tem um conceito totalmente diferente de outros lugares.

Barneschi disse...

Vitor,

Pior que estava. Eu, Luiz, Galuppo, Japa, Cupim, Daniel... pode botar mais uns 15 ou 20 da Centro-Sul nessa lista.

Fui de busão de linha com o Luiz. A idéia era também voltar de busão de linha, mas mudamos lá no Maraca.

Voltamos no busão da Savóia.

Deu no que deu.

Felizmente estamos todos vivos.

Abraços

filipe disse...

Vitor, nesse país o prizidente precisa cooptar seu próprio ministro para governar. É claro que a liderança da torcida não vai querer livros de lei. Contrata um advogado picareta para fazê-lo. Felizmente não precisamos ser assim, e na verdade o conceito de torcida mudou no momento em que começou a praga do sofá e do payperview.
Não é portanto a torcida que tem conceitos diferentes de outros lugares, mas é a sociedade que está pressionando as organizadas e as estigmatizando de CRIME organizado.
É só pesquisar e ver o papel dos Gaviões na década de 70 até o findar da Democracia, por exemplo.
O caminho estava traçado e foi rompido, não por culpa do telefone ou da internet.
A culpa é da maldita consciência e da alienação generalizada.
Pensar que ela está para ficar, bem... ela ficará mesmo, e fim de papo.

A própria arquibancada está virando um sofá...

Craudio disse...

Vitor, não apela que eu tb apelo...

hahahahahahahahahahahahhahahahahha

Um viva para Finazzi!