17 novembro 2007

Jorge, Gennaro e o menino sem alma

Desde a várzea paulistana, o berço de tudo, Jorge e Gennaro foram criados no preceito mais puro da desportividade: a disputa em nome do manto.

Jorge, pouco mais velho, veio de família operária. Mas sua turma contava com profissionais de uma gama variada de setores, de carvoeiros, cocheiros de tílburi, alfaiates e barbeiros a advogados e professores.

Gennaro descende de imigrantes italianos. Camponeses, artesãos, agricultores, gente de poucas posses, todos impelidos a buscar na ‘Merica uma nova vida.

Vida que só faz sentido com um ideal à frente.


Jorge e Gennaro nunca foram amigos. Eram, pelo contrário, rivais. Desde a mais tenra idade, sempre houve disputa entre os dois. Rivalidade sadia, pois respeitosa. E necessária, pois verdadeira e incondicional. Poderia mesmo ser chamada de “a maior do mundo”.

Jorge foi o primeiro a trazer seus amigos operários para o futebol “grande”, aquele que se supunha de “gentlemen”, diferenciação que existia só pela graça de trazer demérito ao adjetivo “várzea” (cheio de alma, por sinal).

Jorge pleiteou e conquistou o direito de disputar com os “gentlemen”. O povo entrava em campo.

A abertura de espaço possibilitou à turma de Gennaro, após anos de amadorismo, ser considerada maioria em Piratininga, cidade que falava, não por acaso, com o típico sotaque de uma vila siciliana ou calabresa.


Não demorou muito para tomarem o lugar dos que antes eram tidos como senhores do esporte bretão nesta Piratininga. Os “gentlemen” viam Gennaro e Jorge superá-los não só dentro de campo, mas também em estrutura.

Por trás de ambos estava o povo, a razão maior do esporte bretão.

Senhores feudais em um século que não o deles, os “gentlemen” gostavam de manter o futebol no amadorismo como maneira de esconder as gratificações que tornavam possível aliciar atletas de agremiações adversárias.


Isso não afetava os times de Jorge e Gennaro. Desde os campos de várzea a norte e a oeste da Vila de Piratininga, prevalecia o amor ao manto. Muitos eram os admiradores, logo alçados à nobre condição de torcedores.

Foi assim, com a força de seus povos, que sobreviveram os dois moleques da várzea paulistana. Mais até: cresceram, ganharam títulos e logo deixaram para trás os que pensavam ser nobres.


Eis que surgiu, anos depois, um menino mimado, de linhagem rica, quatrocentona e tradicional, mas com trajetória marcada por separações, brigas e conflitos. Uma família decadente, que sempre tentou esconder seus problemas por trás de uma fachada prepotente.

Assim, o rapazote não tinha seguidores, senão os que foram abandonados pelos clubes de chá-das-cinco, os mesmos que tinham em mente a derrocada de Jorge e Gennaro. O menino mimado era a última chance de tentarem ser algo.

A esta altura, no entanto, ambos já haviam transcendido a armadilha imposta pelos artífices do amadorismo e engatinhavam no profissionalismo vigente.

O menino mimado das elites veio ao mundo sem berço, sem amor e sem alma. De sua gente que virou casaca, herdou os genes oportunistas e nada mais.

Ainda pequeno, de tudo fez para se estabelecer. Estratégias as mais sórdidas, politicagens baratas e muita arrogância serviam apenas para angariar rejeição, inclusive entre os seus.

O moleque tentava se firmar em seu caráter capenga às custas de quem fosse. De nada adiantou; criança ainda, foi à falência.


Sem família ou amigos, foi salvo exatamente por Jorge e Gennaro, que se uniram para ajudar o pobre coitado.

Triste episódio.

Mal sabia Gennaro que aquele fedelho, um dia reabilitado, seria o artífice de uma campanha difamatória contra suas origens.

O objetivo era um só: tomar a casa construída com o suor de Gennaro e do povo que o fazia grande. É irônico que tal atitude tenha partido de alguém desprovido de berço.

Ter o sangue do sul da Itália, no entanto, nunca foi coisa pouca. Gennaro resistiu e triunfou diante de um pirralho que, derrotado, abandonou o nobre campo de batalha municipal, à época ainda com o nome purificado.

Tal fato se deu na mesma época em que os comparsas do menino mimado forçaram Jorge a ter como comandante um burocrata golpista, alguém que nem de suas fileiras era. O filhote dos senhores feudais deixava aflorar o seu caráter oportunista.

Anos se passaram, e o moleque seguiu seu caminho desprezível.

Até que, ainda jovem e com padrinhos no poder, ganhou uma enorme casa, custeada com o dinheiro de Jorge, Gennaro e de toda a coletividade.

Manuel, diga-se de passagem, outro boleiro destas paragens, também entrou na lista dos vitimados por politicagens baratas e maracutaias.

O rapaz sem alma foi ganhar corpo décadas depois. Em posses, nunca em caráter. Suas conquistas eram vazias, pois sem o doce sabor da superação.

O menino ganhou o mundo, mero instrumento para a lavagem cerebral que visava ganhar apoio de cidadãos desprovidos de alma e de qualquer senso de julgamento moral.

Dele se aproximaram as figuras mais desprezíveis.

Aproximação não por amor, mas por interesse.

Não aquele financeiro, típico das nossas oligarquias mais putrefatas, mas por status. Pela enganosa possibilidade de desfrutar do que a vida oferece de mais prazeroso. Sem esforço, é óbvio.

É uma grande moleza, não?

Os seguidores do menino mimado agem como ele. Pensam que o dinheiro pode comprar tudo e vêem a ética como um atributo pouco relevante, quase indesejável.

Não é à toa. Ao longo de toda a história, acostumaram-se a ver todo tipo de favorecimento vindo dos canalhas de amarelo, de toga e de ternos bem cortados.

Tampouco conhecem a própria história. Mais fácil (sempre a mesma lógica!) acreditar nas invencionices tacanhas de quem empunha um microfone ou uma caneta sem dignidade para tanto.

Afinal, trata-se do filhinho daqueles que tomavam o chá-das-cinco no começo do século, pensando em como afastar o povo do esporte que começava a ganhar força no imaginário popular.

Os que seguem hoje o garotinho mimado o fazem por esta necessidade de ter status, de esnobar, de mostrar o que têm e o que não têm.

Como se preza a todo novo rico, é bom cultivar esta imagem.

“Ter é mais importante que ser”. É como pensam os oportunistas. É como cresceu o menininho mimado, sempre cercado de bajuladores e de pessoas que se adulam nas posses e em nada mais.

Ao ver que Jorge e Gennaro tinham o que ele não tinha, tratou de correr atrás. E o fez não como os guerreiros da várzea paulistana, mas como se preza a alguém sem história para contar.

Como é vazio o menino mimado, tudo é adorno. Que atrai nada mais senão a soberba medrosa da necessidade de reafirmação. São badulaques que se penduraram no vazio. Um prato cheio para oportunistas.

E os oportunistas se enfeitam, mas só enquanto for moda.

Porque na vida há coisas que superam, e muito, a imagem.

Os dois pioneiros do esporte bretão já viveram o ocaso, assim como as maiores glórias. Fácil nunca foi. Ficou a lição: as maiores vitórias são aquelas que acontecem após a tempestade.


Cair, levantar e dar a volta por cima: eis a virtude dos guerreiros.

Jorge, por exemplo, passou anos e anos sem ganhar nada. Quase na miséria, os amigos só faziam crescer, mais e mais. Tanto cresceram que protagonizaram o momento maior de sua vida. O significado disso que viveu revigorou sua alma.

Uma nação que cresce na adversidade tem muito a contar, pois viveu intensamente. O povo confortou Jorge ao longo de décadas de sofrimento com o mesmo amor de uma mãe.

Assim foi também com Gennaro, que, no momento mais complicado de sua caminhada, teve por perto todos os seus. Foi ao fundo do poço para então retornar nos braços de quem, por amor, o amparou.

Para Jorge e Gennaro, sofrer faz parte das maiores conquistas.

E o povo estará sempre por perto, seja qual for a situação.

Ao moleque mimado, sabe-se lá o que aconteceria se chegasse ao fundo do poço.

Dirão os oportunistas de plantão, com a empáfia que lhes é peculiar:

"Jamais cairemos do nosso pedestal".

Só o tempo pode dizer.

O que se pode ter desde agora é a certeza de que de nada vale ser sustentado por quem está ao seu lado por interesse.

Interesse de ostentar o produto que é o mais vendido no momento, aquele que é o mais badalado, a modinha que está pegando.

Quem vai atrás da turminha só o faz para evitar que o ponto fraco do caráter seja desmascarado por qualquer “tirador de sarro” por aí.

Fácil é se proclamar vencedor sem enfrentar as dificuldades.

Fácil é se afastar na hora das batalhas para só aparecer na hora da festa, proclamando algo que nunca foi e nunca será.

Vencer é para poucos; é para quem luta.

Especialmente na adversidade.

Não dá para esperar isso dos acompanhantes do menino mimado, que somem ao primeiro revés.

Quem se declara vencedor depois de estar longe por toda a batalha é, na verdade, um fraco.

Bajular na hora da conquista é fácil; e não exige alma. A hipocrisia está em moda, infelizmente.

Só quem luta e está presente na vitória e na derrota sabe mensurar o que é uma conquista e o que é mera propaganda.

Só a alma detém a verdade.

Ser parte de uma geração vitrine, que vive de ostentar aquilo que veio sem suor, é cômodo.

Tão cômodo quanto vazio.

E está impregnado à genética oportunista dos que não têm alma.

Amar é sofrer.

Amar é se doar.

Amar é se dedicar, mais ainda nos momentos difíceis.

Jorge e Gennaro sempre souberam disso.

Assim foram criados.

Esta é a lição que passaram para suas torcidas...

***

Co-autoria de Rodrigo Barneschi e Filipe Gonçalves, que explica em seu blog um pouco desta criação conjunta.

24 comentários:

luigi sep 1914 disse...

Siciliana e calabresa o caralho!!!
Gennaro é nome NAPOLETANO!!! Assim como a maioria dos imigrantes em São Paulo...
Sem mais

Luiz disse...

Sensacional! Emocionante!

Parabéns aos dois autores! Este texto diz tudo!

Vou passar pra frente!

Abraço!!

Ps: Luigi, vai ser corneteiro lá longe hein! Depois falam de mim...

vitor disse...

excelente texto.
parabéns ao patife e ao gambá (com td respeito) pelo texto.

só um atento: "...vêem a ética como um atributo pouco relevante, quase indesejável."
seria o luigi, um seguidor desse menino sem alma???

Daniel disse...

ducaralho, barneschi!!!!

parabesn a vc e a ao filipe

Anderson MAncha Verde disse...

Barneschi, mto bom o texto cara.... vc escreve pra caralho... parabens..... e sem querer enxer o saco,m mas queria perguntar porque o Jorge vem antes do Gennaro??? naum podia ser o contrario?
abs

Forza Palestra disse...

Anderson:
Pô, cara, deixa de ser corneta. O nome do Jorge vem antes porque mais velho e também porque "Jorge e Gennaro" é mais sonoro que "Gennaro e Jorge". Simples assim.

Luydy:
É por atitudes como essa que você perde a credibilidade.
GUTO CAMPEÃO! CHUPA LUYDY!

luigi sep 1914 disse...

Pau no cu desse jorge!!!
Aqui é PALMEIRAS e só!
O resto é somente resto e tudo igual...

mancha z/s disse...

mto bom!!!!!!!!!!!

South Park disse...

Não percam o próximo capítulo dessa historinha: Gennaro sem vaga para a Libertadores, Jorge na segunda divisão e o menino sem alma rindo a toa! huahuahua

Luiz - uberlândia disse...

o texto, mais uma vez, brilhante.

só um detalhe, entretanto: o 'jorge' (penso) não é lá tão bom-moço como retratado... não tenho filha, mas, se tivesse, não casaria a mesma com o indigitado cidadão...

abraços verdes,

Luiz - Uberlândia.

Craudio disse...

O Luydy perde oportunidade preciosa de se manter calado. É que nem a Heloísa Helena: vai tanto a um extremo que acaba caindo no outro. Puta discursinho bambi esse...

No mais, é o Castelo de Âmbar do futebol.

FORA LUYDY!

vitor disse...

se depender do time do south park o jorge não cai pra 2ª...foi assim com o grafite e pode ser assim esse ano.

elas adoram dar pontos pro jorge.

vitor disse...

ah, 12' do 2º tempo, venezuela 2 x 2 bolívia.

FUERZA BOLÍVIA!!!!

filipe disse...

luydy, o reino sempre será das Duas Sicilias.

luiz berlandia, o gennaro também não é.
E quando você tiver sua filha, ela vai fatalmente preferir o Jorge. Só pra te provar que você não casa ninguém...

bambi anônimo, o molequinho sem alma só ri à toa. E não é de felicidade. É demência.

O próximo capítulo poderá vir a ser justamente a explicação disso.

HOLOCAUSTO bambi

Rodrigo disse...

Belo texto, esse!

FORA LUYDY!

Luiz - uberlândia disse...

Bom, Filipe, se vc. disse que o Gennaro "também" não é, é sinal de que concordas com o fato de que o Jorge é, de fato, um mal elemento. Bom começo e bom sinal.

abraços verdes,

Luiz - Uberlândia.

filipe disse...

Luiz, não falei que concordo que seja mau elemento, camarada. Você vê coisa onde não tem, nesse caso.

Dissemos que não é bom moço. Não são mesmo.
Nega-se X, no caso. Ninguém é "bom moço".
Não se afirma Y (que alguém é mau elemento) apenas por negar X (ninguém é bom moço), você compreende?

Portanto não tem sinal nenhum, meu caro.
A não ser que você se considere um "bom moço"...
Daí recomendaríamos a você frequentar a toquinha da raposa...

Aliás, ninguém retratou nenhum "bom moço" no texto.
Você viu onde esse "bom moço"?...

Luiz - Uberlândia disse...

O texto é BRILHANTE. Aliás, como tudo que o Rodrigo Barneschi escreve, por isso o sigo diariamente.

Entretanto, NÃO GOSTO DO JORGE. Sei que não foi a mensagem do texto ao aproximar, em muito, a história e o histórico de ambos, mas NUNCA VOU GOSTAR DO JORGE. Só isso.

E, pelo texto, trata-se de uma pessoa com uma história muito parecida com a do Gennaro, o que repilo, porquê o Gennaro, sou eu.

AVANTE PALESTRA!!!!!

"Obrigado Senhor por nos conceder, o VERDE que nos faz viver" (Luigi)

PALMEIRAS!
PALMEIRAS!
PALMEEEEEEIIRAAASSS!!!!

valeu!, Filipe!,

Luiz, Uberlândia.

Forza Palestra disse...

Como estou viajando, só agora pude ver os últimos comentários. Polêmicas e exageros à parte, só devo registrar que o tal de South Park (estava sumido esse bambi com codinome imbecil) consegue, em poucas palavras, resumir tudo aquilo que foi dito pelo texto.

Sub-raça, só isso.

filipe disse...

Codinome imbecil para um merda que se esconde.

MOSTRA A CARA BAMBI FILHO DA PUTA

Anderson "recifense" Ugiette disse...

oq falar!?!
naum comento os textos do barney pq sempre achei os textos irados...
enfim...
esse merece e devo dizer q foi o melhor jah lido por mim desde os tempos de blig...
fora isso vou entrar com uma duvida...
o luigi... ele eh meio radical, corneta e desprovido de bom senso assim mesmo como ele passa nos comentarios?!?!
1987 - SPORT CLUB DO RECIFE CAMPEÃO BRASILEIRO!!!

PALESTRA ATÉ DEPOIS DE MORRER!!!

FORZA!!

Forza Palestra disse...

Anderson,

Agradeço pelos elogios (lembro apenas que o texto foi escrito por mim e pelo Filipe) e pela "audiência" de sempre.

Quanto ao Luigi, decidimos abrir uma exceção. Já é um caso perdido...

Abraços

parmera disse...

não adianta escreve bem e tudo, mas não aprovo a mistura com gambá nem fudendo.

Kaleb Forte Rodrigues disse...

Meuuuu que texto loko !!!

Isso é lindo de se ler...

BAMBI EU TE ODEIO ATE A MORTE !!!!!!