11 maio 2015

O rei está nu

Em campo, um time nervoso, afobado, errando o que podia e o que não podia. Vem mais um ataque do adversário que, outrora saco de pancadas, virou carrasco. A bola chega, como que por acaso, aos pés de um pobre diabo. Gol. Parte do estádio irrompe em um grito que merece ser estudado: "Ei, Mancha, vai tomar no cu."

Por quê?

A resposta: porque a organizada, em protesto contra o vigente processo de elitização, passara os 90 minutos calada, com cada um de seus integrantes sentado no devido lugar, adotando exatamente o comportamento que é ditado por muitos dos que partiram para a ofensa: o de uma plateia no teatro.

É isso, sem tirar nem por.

Mas é necessário avançar no debate.

O que, afinal, motivou a voracidade daqueles que frequentam os setores centrais e os camarotes do nosso novo e moderno estádio?

Apresento algumas hipóteses e deixo aberto o espaço para que os leitores escolham a mais palatável. Fiquem à vontade.

(  ) A - Foi uma espécie de chilique, coisa momentânea, compreensível se levarmos em conta o autor do gol que nos colocou em desvantagem no placar. Depois daquilo, alguém haveria de pagar o pato e, convenhamos, não poderia existir alvo melhor do que uma torcida organizada. Afinal, é muito cômodo se posicionar contra "aquele bando de bandidos e marginais travestidos de torcedores".

(  ) B - A reação foi assim uma espécie de manifestação neoliberal e em defesa da elitização no futebol. "Quem esses caras pensam que são para protestar contra #deusnobre, o benevolente homem de negócios [???] que transformou o Palmeiras em uma potência dentro e fora de campo?". "Tem que aumentar ainda mais o preço do ingresso para conseguirmos expulsar esses vândalos". "Se você for Avanti 5 estrelas, tiver Itaucard Platinum e for um dos 500 primeiros, consegue pagar um valor baixo pelo ingresso; essa gente precisa parar de reclamar sem motivo". "Não tem dinheiro? Então fique em casa e veja pela TV, seu pobre!"

(  ) C - Foi, de certo modo, um despertar de consciência, com muita gente se dando conta da verdade inesgotável: sem a força da organizada, o estádio não vibra. Mas, afinal, não há certa contradição aqui? Vejamos: os caras têm se esforçado tanto para transformar nossa casa em um teatro (com preços obscenos, com vergonhosas micagens no telão e com um presidente que deseja impor a torcida única à força) e, quando conseguem, xingam logo aqueles que permitiram que isso acontecesse? Ou, posto de outro modo, seria a revolta dos que se sentiram desnudados com a inoperância do restante do estádio? Aí, ficando evidente a incapacidade de empurrar o time dentro de campo por conta própria, o que fazem é ofender os que jogaram luz sobre a apatia generalizada?

(  ) D - Nobre, seus asseclas e todos aqueles que, palmeirenses ou não, atuam em nome da agenda elitista podem ter ido tão longe na causa que já há quem se porte exatamente conforme o esperado: são consumidores e não torcedores. Se o cidadão está pagando (caro) pelo acesso ao estádio, entende que está contratando um pacote que deve incluir, entre outros mimos, um bando de selvagens a pular e a cantar incessantemente para que ele, sentado confortavelmente em sua cadeira numerada, possa desfrutar do espetáculo. É como o sujeito que vai ao zoológico e resolve xingar o leão porque ele não apareceu naquele dia. "Eu paguei o combo completo! Por que esses animais não vão cantar hoje?". Não demora muito e alguém vai acionar o Procon porque a organizada não fez festa.

E então, caro leitor, que alternativa melhor explica o xingamento entoado por parcelas mais abastadas do público em reação ao protesto da torcida organizada?

De minha parte, vejo uma combinação de todos esses fatores, uns mais do que outros.

O coro de "Ei, Mancha, vai tomar no cu" ressalta a fragilidade por trás de tudo o que pensam os defensores da política elitista e excludente do senhor Paulo Nobre. Porque, vejam os senhores, a entidade Mancha Verde foi atacada exatamente por não desempenhar a função que costuma exercer em todos os jogos e em qualquer estádio, mesmo contra a vontade do mandatário que aí está. A entidade Mancha Verde foi atacada por se comportar passivamente, como ocorre em boa parte do estádio, e por seguir exatamente o padrão de comportamento que se espera nessas 'novas arenas'.

O coro de "Ei, Mancha, vai tomar no cu" acabou por validar o protesto, ao expor uma torcida rachada e que, muito pela política excludente da gestão que aí está, já não tem mais a mesma força de antes. Se o que queria a Mancha era "colocar em questão o papel importante das torcidas organizadas e o quanto elas são fundamentais para transformar o estádio em um caldeirão", então o objetivo foi plenamente alcançado.

O rei está nu e a contradição, colocada: os defensores da elitização praticam preços de teatro e querem festa de arquibancada; tentam impor um novo padrão de comportamento e exigem incentivo de uma torcida que se vê mais excluída do estádio a cada dia que passa.

Decidam-se, pois. É uma coisa ou outra, e o jogo deste sábado representa um marco neste embate entre um Palmeiras popular, aberto a todos e com torcida em todo o país e um Palmeiras excludente, idealizado para os que têm muito dinheiro e se preocupam mais em aparecer no telão e em aplaudir a renda.

Por ora, fica uma triste constatação: será muito difícil esquecer o dia em que, na nossa casa, atacou-se quem estava defendendo os setores mais populares da nossa torcida.

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Fever Pitch (Nick Hornby), páginas 76 e 77:

"Os grandes clubes parecem ter se cansado das suas torcidas, e sob certo aspecto quem pode culpá-los? Jovens trabalhadores e homens de classe média baixa trazem consigo problemas complicados e ocasionalmente perturbadores; os diretores e presidentes podem argumentar que eles tiveram sua chance e a desperdiçaram, e que as famílias de classe média - o novo público-alvo - não só irão se comportar bem, como pagar muito mais para fazê-lo. Esse argumento ignora questões básicas que envolvem responsabilidade, justiça e o papel que os clubes têm ou não a representar nas suas comunidades. Mas mesmo sem essas questões, parece-me haver uma falha fatal nesse raciocínio. O prazer que um estádio de futebol pode proporcionar é, em parte, uma mistura do vicário com o parasítico, porque a não ser que a pessoa poste-se no Lado Norte, no Kop ou na Ponta Stretford, fica dependendo dos outros para que a atmosfera seja criada; e a atmosfera é um dos ingredientes cruciais da experiência futebolística. Essas torcidas imensas são tão vitais para os clubes quanto os jogadores, não só porque seus membros são eloquentes no seu apoio, não só porque fornecem aos clubes grandes somas de dinheiro (embora esses fatores não deixem de ser importantes), mas porque sem as torcidas ninguém se daria ao trabalho de ir ao jogo. O Arsenal, o Manchester United e todo o resto têm a impressão de que as pessoas pagam para ver Paul Merson e Ryan Giggs, e é claro que elas fazem isso. Mas muita gente - o pessoal das cadeiras que custam vinte libras, e os caras dos camarotes-executivos - também paga para ver a torcida que foi lá ver Paul Merson (ou para escutar a torcida gritar com ele). Quem iria comprar um camarote-executivo se o estádio estivesse cheio de executivos? O clube vendia os camarotes incluindo a atmosfera de graça, de modo que o Lado Norte gerava tanta renda quanto qualquer um dos jogadores. Mas quem irá fazer o barulho agora? Será que a garatoda suburbana de classe média ainda virá com suas mamães e papais se o barulho tiver de ser feito por eles mesmos? Ou será que se sentirão tapeados? Porque a realidade é que os clubes estão lhes vendendo ingressos para um espetáculo no qual a atração principal foi afastada para dar lugar a eles. Mais uma coisa sobre o tipo de plateia que o futebol resolveu atrair: os clubes vão ter de garantir a qualidade, garantir que não haverá anos de vacas magras, porque o novo público não tolerará fracassos. Essas pessoas não são do tipo que irá ver o time jogar contra o Wimbledon em março, estando em décimo primeiro lugar na Primeira Divisão e fora de todas as disputas de títulos. Por que deveriam ir? Elas têm muitas outras coisas para fazer. Portanto, Arsenal... nada de escritas perdedoras de 17 anos de duração, feito aquela entre 1953 e 1970, certo? Nada de ficar flertando com o rebaixamento, feito em 1975 e 1976, nem nada de meia década sem sequer chegar a uma final, feito a que nós tivemos entre 1981 e 1987. Nós, fregueses de caderno, aturamos tudo isso, e pelo menos 20 mil de nós aparecíamos lá por pior que o time jogasse (e às vezes jogava muito, muito mal mesmo); mas essa turma nova... não tenho tanta certeza assim."

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O Leandro Iamin, brilhante, fez uma análise bem racional de todo este cenário. Vale pelo texto em si e para que se tenha noção, a partir dos comentários, do nível de alienação e afetação que tomou parte de boa parte de nossa torcida. É absolutamente desesperador.

04 maio 2015

Em frente




















Perdemos um Campeonato Paulista que poderia ser nosso se detalhes tivessem pesado a nosso favor – mas eles pesaram contra. Deixamos escapar o 23º título estadual em meio a falhas individuais e azares coletivos. Perdemos, afinal, porque faltou a intensidade que sobrou em outros momentos desta trajetória e porque o adversário soube aproveitar melhor as oportunidades.

Acontece; é o futebol.

Ao deixar o amontoado de laje ontem, a sensação era bem diferente da que me nos perseguiu em todas as eliminações de anos anteriores. O Palmeiras/2015 não foi campeão (ainda?), mas tampouco se aperfeiçoou na terrível arte das derrotas absurdas, inexplicáveis e impossíveis. Pelo contrário: dessa vez conseguimos encontrar explicações para a derrota, e elas são não apenas razoáveis, mas também aceitáveis.

Dessa vez, senhores, não há terra arrasada; é tudo questão de promover os ajustes necessários.

Se outras eliminações recentes me faziam deixar o estádio praticamente carregado, sem forças e sem condições psicológicas de esboçar qualquer reação, o Paulistão de 2015 teve para o Palmeiras um efeito revigorante. Tanto que eu deixei aquela pocilga não de cabeça baixa e com a certeza de que acabara de acompanhar uma derrota traumática, mas de peito aberto, vociferando contra os pés-com-areia ali do setor ao lado e com a certeza de que é preciso seguir em frente.

Até sábado!

30 abril 2015

Os 16 do Nobre

O discurso é bem ensaiado. Tanto que se adapta aos números e às circunstâncias com extrema facilidade:

“Não governo para dois mil que vão aos jogos do Palmeiras fora de casa. Governo para 16 milhões”.
Paulo Nobre, tentando justificar a obsessão doentia por torcida única em clássicos – e também em outros jogos

“Eu administro o Palmeiras para 16 milhões de pessoas. Não só para 30 mil, 40 mil que vem ao estádio”.
Paulo Nobre, irônico, abusando das habituais falácias e fazendo pouco caso dos 40 mil que pagamos valores extorsivos para ver o Palmeiras disputar a primeira final em sua nova casa e mais ainda daqueles que foram alijados do estádio

Houve o tempo do Nobre choramingando pela falta de dinheiro em caixa. Também o tempo do Nobre que não queria ser refém do centenário – e que quase arrastou clube e torcida para o inferno do rebaixamento. Veio, depois, o Nobre “capacho do MP” – e este continuará na ativa até que seja feita a sua vontade doentia. Este mesmo apostava na tática de maltratar os números para criar falácias travestidas de argumentos. E há agora, na iminência de um título, o Nobre prepotente, que joga aos leões (ou aos peixes, como quiserem) o seu torcedor.

Não, Nobre não governa para os, segundo ele, “dois mil” que vão aos jogos do Palmeiras fora de casa. Tampouco para os “30 mil, 40 mil que vem ao estádio”. Menos ainda para os que não podem arcar com a extorsão nossa de cada semana no novo Palestra. Nobre governa para seu próprio ego e, no máximo, para sua corja de aduladores. Nobre governa para seu irrefreável apetite por dinheiro e, com boa vontade, para uma meia dúzia de asseclas.

Meia dúzia? Melhor seria dizer 16. Os mesmos 16 que apareceram ao lado do mandatário alviverde em um confortável camarote no estádio de nosso maior rival, em foto que circulou livremente pelas redes sociais. Não, não vou aqui publicar a imagem em questão, mas os 16 que ali aparecem, ao lado de um Nobre com a língua de fora, são os cúmplices que dizem amém para todas as atrocidades que vêm sendo cometidas por esse sujeito contra a Sociedade Esportiva Palmeiras e contra sua gente.

Por sinal, cabe repetir que a ida de 1.886 representantes de verde ao estádio de Itaquera ocorreu contra a vontade de Paulo Nobre. Só fomos até lá porque avalizados por Mário Gobbi, presidente do SCCP até a véspera do dérbi ocorrido em nosso estádio em fevereiro. Foi Gobbi que, ao bater o pé em entrevista coletiva na antevéspera do jogo, garantiu a presença de 1.500 visitantes no nosso estádio e, de quebra, assegurou que pudéssemos ir a Itaquera dois meses depois.

Se dependesse de Nobre, o Palmeiras não teria tido sequer um torcedor no Itaquerão. Nossos atletas teriam entrado em campo diante de 40 mil inimigos, sem qualquer respiro em meio a uma pressão que viria de todos os lados. Não se ouviria um grito sequer de incentivo às nossas cores, os jogadores não teriam para onde correr na hora da comemoração, não haveria nada – a não ser uma pequena corja reunida em um camarote escondido – a representar 16 milhões em meio à massa adversária. E nada disso aqui teria acontecido.

Fomos, 1.886, até território inimigo de trem e caminhando 8km na ida e na volta, sob chuva. E faríamos tudo de novo, porque é nosso direito e nosso dever. Mas, no que dependesse de Nobre e de seus asseclas, o Palmeiras seria representado no Itaquerão – e em outras canchas – por aquele pequeno grupelho que tomou o poder para achacar a torcida semana após semana.

Esqueçam os 16 milhões do discurso falacioso.

O ego de Nobre enxerga toda essa gente como cifrões.

Daí então que, na base do “eu acho”, “eu penso”, “eu acredito” e “eu quero”, responde às demandas da torcida com ingressos a obscenos R$ 88 para ver um jogo no telão, ignora as manifestações populares e perpetua uma sequência de atentados contra o palmeirense: como se não bastasse o ingresso a R$ 210 para a finalíssima (e eu venho fazendo esse alerta há meses), Nobre coloca em risco os palmeirenses que terão de ir comprar os bilhetes logo na casa do rival. Uma temeridade sem tamanho.

Mas não há de ser nada; o que importa, para Nobre, é colecionar recordes de arrecadação, vomitar discursos falaciosos e prepotentes para refutar manifestações em contrário e, claro, encher o camarote com seus aduladores.

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Ao zelador – e ele vai entender:
Enquanto uns trabalham e cuidam de suas vidas, há os aduladores que, revestidos de pequenos poderes, se sentem no direito de proclamar vantagem a partir de coisas ainda menores.

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Pouca gente viu, mas... ... faltava ainda uma hora para o jogo do último domingo quando um representante do Choque entrou no gramado do nosso estádio. Vestia a mesma farda que vestiam os bravos, valorosos e destemidos homens que massacraram a nossa torcida no último dia 8 de fevereiro. Era também a mesma farda dos bravos, valorosos e destemidos homens que agrediram um dos nossos no Itaquerão, um domingo antes. Sua imagem apareceu no telão. Ele segurava um diploma ou algo que o valha. O sistema de som não funcionou bem e não foi possível entender exatamente o que ocorria, mas fato é que houve uma homenagem a um homem do Choque (que, imagino, representava a instituição) dentro da nossa casa, diante dos olhos de muitos que foram massacrados no dia 8 de fevereiro. Foi quase um salvo-conduto para que os bravos, valorosos e destemidos homens do Choque descessem a porrada nos nossos.

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Post publicado originalmente no 3VV - e o nível dos comentários ali é bem evidente da alienação que tomou conta de boa parte da nossa torcida.

20 abril 2015

Aqui, sim!

























São Paulo, Itaquera, extremo leste.

Dizem Diziam que por ali se ergueu um estádio que somente traria alegrias para a tal torcida que se autoproclama o que é e o que não é. Lá, no alto de um descampado bem ao leste de onde surgiu a metrópole, a casa nova foi, por pouco menos de um ano, o que dela se pensava pretendia: jogou-se ali uma Copa do Mundo; construiu-se uma invencibilidade notável; teceram-se loas ao mármore dos banheiros, às latrinas que vieram do Japão, à modernidade onipresente; lamentou-se por assentos plásticos que não deveriam existir; criou-se uma conexão entre time, torcida e estádio; gastou-se e ganhou-se dinheiro com tudo, inclusive com faixas e adereços evocando uma pretensa infalibilidade da nova casa.

Mas...

Mas a história pesa. E as camisas pesam, umas mais do que as outras.

(...)

2015, abril, 19. Fim de tarde. Da esquina sudeste do novo estádio, o olhar se desvia do campo apenas para avistar a persistente neblina que paira por entre as luzes que vêm da marquise. Em campo, os dois rivais eternos protagonizam um duelo à altura das tradições do dérbi paulistano. Também na arquibancada. Ao sul e ao leste (e por todos os outros cantos), a torcida rival parece acreditar no que diz: "Aqui, não", dispara-se a todo momento. A autoconfiança cede espaço à arrogância: "Aqui, não", proclama-se.

Havia, do outro lado, ao norte, um novo telão. Dois, aliás, cada qual com imagens distintas. O placar, no entanto, só funciona quando convém - os gols visitantes o deixam em compasso de espera por longos minutos. A leste e a oeste, entre setores superior e inferior, longos displays de led, cujos gols têm algumas centenas de vogais e consoantes, ficam a disparar mensagens de incentivo, letras de músicas ou recados querendo instaurar uma nova ordem ("É proibido fumar", "Respeite o lugar marcado", "Devolva a bola"). Pura poluição visual, a distrair a atenção do que realmente importa: a cancha.















Aqui, sim.

Rola a bola. Em campo, Palmeiras e Corinthians - assim mesmo. Um clássico gigantesco. Taticamente, tecnicamente, emocionalmente. Na entrega de lado a lado, nas opções criadas, nas chances, nos gols, nas defesas, na bola que vai à trave, nas alternativas, nas falhas de lá e daqui. E também nas torcidas, ambas de parabéns pelo espetáculo proporcionado. Um clássico como há muito não se via.

E então, dentro de campo, não há faixas, telões ou displays que façam a diferença. Porque é lá dentro que tudo que se decide e, torno a dizer, há camisas que pesam mais do que as outras. Há camisas que pesam quando mais se precisa delas. Que se fazem notar nos momentos extremados. Que imploram por um jogo como o de ontem.

"Enquanto existir uma camisa verde com
um P no peito, deve haver respeito".

O Palmeiras tal como conhecemos andou ausente, bem sabemos. Perdemos a mão, caímos algumas vezes, sofremos mais que o suportável. Mas continuamos sendo Palmeiras. Ainda mais diante do rival que adoramos colocar no devido lugar.

Porque, a despeito de sequências adversas como a atual, sempre teremos 1993 - e o mosaico pré-jogo entrou em campo, tenham certeza disso. Sempre teremos 1974. E 1999/2000, cujos pênaltis, todos eles, vieram a campo no anoitecer de Itaquera. E sempre teremos cada uma das vitórias grandiosas que fizeram do Palmeiras o gigante que ele é. Inclusive esta última, pois, em que pese a frieza dos números (alguns dirão, inutilmente, que segue o tabu recente e que não caiu a invencibilidade), a conquista que alcançamos é maior do que todas as muitas vitórias que deixamos de conseguir nestes últimos anos.

Para todo o sempre, o empate no segundo confronto entre Palmeiras e Corinthians no extremo leste da cidade virá acompanhado de um asterisco. E ele destacará, em letras garrafais, que o Palmeiras triunfou no primeiro jogo decisivo que se disputou no estádio onde, dizem diziam, ninguém poderia superar o time mandante.

A vitória que figurará para as estatísticas virá muito em breve. E outras tantas. Mas a história haverá de proclamar o 19 de abril de 2015 como o domingo em que Itaquera viu o triunfo de 14 camisas verdes, um técnico que ousou além do que parecia ser sensato e 1.800 guerreiros que seguimos até território inóspito para defender o peso da história contra a arrogância dos incautos alvinegros.

Aqui, sim.

E em qualquer lugar onde houver Palmeiras.

(...)

14 pênaltis depois...

... a neblina seguia no céu de Itaquera. Aos poucos, o Itaquerão foi se esvaziando. Cada um dos 36 mil do outro lado teve de deixar o estádio ouvindo, em alto e bom som, a festa dos 1.800 intrusos de verde - uma retirada que doeu bem mais do que eles querem admitir. E então, já apenas os de verde por ali, a neblina ganhou a companhia da chuva. Providencial. Para lavar a alma de cada um dos 1.800 guerreiros que cantamos pelos milhões que ali gostariam de estar.



























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Breves considerações finais

_Finda a batalha, por quase uma hora ficamos confinados, isolados em território inimigo. O display de led agradecia a presença de uma tal nação. Ao fundo, um som ininterrupto: o hino do rival foi executado algumas dezenas de vezes. Ninguém pareceu se incomodar, tamanha era a festa.

_No caminho entre estádio e estação de trem, percorrem-se ruas estreitas e estritamente residenciais. Aqui e ali, no entanto, há alguns estabelecimentos comerciais e que tais. Igrejas, por exemplo. Havia cinco ou seis delas, todas evangélicas, no trajeto. Pelo horário (saímos do estádio às 19h30 e chegamos à estação às 20h30), coincidiu de a multidão palestrina passar por cada uma delas no horário dos cultos. Bons momentos para resgatar uma música lá dos anos 1990: "O senhor é palmeirense/ Palmeirense eu também sou..."

_Vejo que o canalha treinador gambá reclama do regulamento. Pois ele deveria se lembrar do seguinte: em 2011, o Palmeiras, dono da melhor campanha, foi eliminado, nos pênaltis, pelo SCCP (dirigido por ele), depois de fazer a melhor campanha. É futebol, meu amigo.

_Parece haver reclamações, novamente, relacionadas a assentos de plástico danificados. Pois eles não deveriam estar ali - a exemplo do que acontece lá do outro lado. Simples assim.

_Da mesma forma que tentam utilizar imagens de televisão para identificar e punir torcedores infratores, deveriam agora se preocupar com a identificação do bandido que agrediu torcedores que apenas comemoravam. Vejam aqui e aqui imagens do flagrante.

17 abril 2015

1.800

















Domingo, 19.04.2015. Seremos 1.800 guerreiros de alma verde em território inóspito, bem longe de casa. Todos prontos para a guerra. À enorme nação palestrina que ficará do lado de fora, fica a garantia de que lutaremos por vocês. Seremos a voz dos muitos milhões que gostariam de estar naquele pequeno espaço de arquibancada em meio às fileiras inimigas. Seremos poucos e bons, e lutaremos até o fim. Pela honra alviverde. Pela nossa camisa. Pela história. Pelo futebol.

A história pesa, senhores. A história nos precede, nos apresenta e nos fortalece. A história vai a campo. A história joga. A história decide. Quando surgir no gramado o alviverde imponente, junto estarão as grandes vitórias conquistadas em quase um século de história. Elas também jogam.

1.800 guerreiros de alma verde. Seremos os representantes de toda uma nação. Em alma, em espírito e na voz que haverá de se fazer ouvir por toda a metrópole a partir de seu lado leste. Seguiremos juntos, desde a nossa casa até o outro extremo da cidade. De trem. E a pé, por entre ruas desconhecidas. 
E assim voltaremos.

Aos 11 que vão a campo, só um pedido:
"Que honrem a camisa e lutem sem parar". Nós lutaremos juntos!


























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_Domingo, 12h - pontualmente. Saída da estação Barra Funda. Plataforma da CPTM. Trem expresso até Itaquera.

_E sim, o texto aí é basicamente o mesmo de jogos anteriores (com pequenas alterações, porque agora o estádio é outro). Eu não conseguiria escrever nada melhor. Nem precisaria.

14 abril 2015

A negação do outro



















2015, março, 25. O Palmeiras impôs ao SPFC a mais inapelável vitória em muitos anos de Choque-Rei. Foi um massacre, com o 3 a 0 não fazendo justiça ao que se viu dentro de campo. Mas, ao final de tudo, perto do apito derradeiro, havia, entre os quase 26 mil presentes ao novo Palestra, não mais do que uma dezena de torcedores visitantes. Uma dezena. Dez. Contavam-se, pois, em duas mãos os tricolores em solo alviverde. Para muitos, aquilo não fez a menor diferença. Para outros, fez toda a diferença do mundo. Para Paulo Nobre, responsável direto pelo vazio no setor visitante, foi uma vitória. Para o futebol, uma derrota imensurável.

Naquela noite, um amigo meu, velho companheiro de arquibancada, usou a seguinte expressão para se referir ao senhor que hoje preside a S.E. Palmeiras: “uma figura humana deplorável”. Sim, é isso. Mas agora, indo além da crítica à mentalidade elitista que vem extorquindo o palmeirense jogo após jogo, vou me concentrar nos efeitos futuros presentes de uma conduta em específico do mandatário de plantão: a nociva articulação para excluir as torcidas visitantes do estádio alviverde – e, por consequência, a torcida do Palmeiras de outras canchas.

Não pensem, pois, que o intuito de Nobre é a exclusão dos visitantes apenas em clássicos – o que, por si só, já seria gravíssimo. A verdade é que ele não medirá esforços enquanto não puder implantar, no Palestra, um regime de negação do outro, no caso, o adversário. Não é questão de um interesse momentâneo ou de mero alinhamento com autoridades constituídas; é, isto sim, aspiração decorrente de uma visão que entende o frequentador dos estádios não como torcedor, mas como consumidor – e isto, notem, é ele quem diz.

A mentalidade doentia do mandatário alviverde entende o torcedor visitante como uma figura indesejada, como alguém que não deveria estar ali, como se o "outro" não existisse.

De início, Nobre tentou excluir a torcida do SCCP do primeiro dérbi em 40 anos no nosso estádio: fez-se de capacho do Ministério Público, foi artífice do massacre imposto à nossa torcida na rua Turiassu e, calado, perdeu a primeira batalha. Sua ‘redenção’ veio no clássico seguinte, contra o SPFW: a exclusão da torcida visitante se deu por uma confluência de fatores, eles todos diretamente ligados ao indecente valor de R$ 200 por um ingresso. Ali, senhores, abriu-se um precedente perigosíssimo: a torcida visitante foi excluída de um jogo (de um clássico, ainda pior) pelo aspecto financeiro.

A verdade é que os visitantes têm enfrentado um cenário dos mais adversos desde a reinauguração do Palestra, em novembro passado, com o preço dos ingressos oscilando entre R$ 140 e R$ 200. Detalhe: para partidas absolutamente corriqueiras, de uma fase inicial de Campeonato Paulista. CENTO E QUARENTA REAIS! DUZENTOS REAIS!

Não vou aqui jogar luz sob a argumentação empregada por Nobre para defender tais valores – ela é, como quase tudo que vem dele, inconsistente. Tampouco vou me debruçar sobre uma análise, digamos, acadêmica sobre as motivações e implicações desse processo de “negação do outro” – até porque não sou a pessoa mais preparada para isso. Mas vou, aí sim, apontar as intenções e os efeitos decorrentes da articulação levada a cabo pelo presidente da S.E. Palmeiras.

Eis aqui a pretensão do presidente “win-win”: em não surtindo efeito as alianças escusas com autoridades constituídas (ou seja, se ele não tiver êxito como capacho do MP), ele seguirá tentando asfixiar os visitantes pelo bolso (ingressos a preços abusivos = setor visitante às moscas). Nobre, acreditem os senhores, é muito mais perigoso do que parece: em seu âmago, ele pensa ter direito de determinar quem pode e quem não pode entrar no estádio Palestra Italia. E sua ambição, ou pelas vias pretensamente legais ou pelo bolso, é eliminar por completo o setor de visitantes do nosso estádio: “Paulo Nobre enxerga o nosso estádio como seu brinquedinho e, como tal, quer definir quem com ele pode ou não pode brincar”.

Colocando em segundo plano a gravidade por trás da empreitada em si, é o caso de ressaltar o seguinte: nos 50% de jogos do Palmeiras disputados fora do estádio Palestra Italia, o palmeirense é este “outro”. É o “outro” que viaja para empurrar o Palmeiras à vitória por todos os cantos do Brasil. E é o “outro” também que, maioria entre os 16 milhões de palmeirenses, vive bem longe de São Paulo e tem raríssimas oportunidades de ver “surgir o alviverde imponente”. É o “outro” que ostenta a camisa alviverde em metade das vezes em que o Campeão do Séxulo XX vai a campo.

Para Nobre, no entanto, o palmeirense como “outro” não interessa porque não contribui para os cofres do clube. Tanto é assim que ele já admitiu algumas vezes “não fazer questão de solicitar a carga de ingressos nos jogos do Palmeiras como visitante”.

É um raciocínio por demais perigoso: ao negar o "outro" que vem visitar o estádio Palestra Italia (pelo bolso ou pela vontade desmedida de não aceitar sua presença em nossa casa), o presidente do Palmeiras está negando o "outro" que é o torcedor palmeirense em todos os demais estádios deste país.

(...)

Eis então que seremos o “outro” neste duelo do próximo domingo, na zona leste, contra o arquirrival cuja torcida Paulo Nobre tentou impedir de vir à nossa casa, na outra ponta da linha 3 do Metrô.

Notem, por favor, que, se tivesse obtido êxito como capacho do MP há pouco mais de dois meses, o Palmeiras iria para esta semifinal histórica sem torcida. Sem torcida!

Como tal aberração não se concretizou (e nossa ida a Itaquera no próximo domingo está sendo avalizada pela reação virulenta do então presidente gambá), teremos de enfrentar agora somente a reciprocidade no preço dos ingressos – conforme eu já havia adiantado antes mesmo do dérbi na nossa casa.

(...)

Deixando novamente de lado as implicações sociológicas, listo algumas das consequências deste processo de “negação do outro”:
  • Erosão do relacionamento com os "coirmãos" – e o Palmeiras pode vir a ser a agremiação mais odiada do Brasil perante dirigentes adversários e torcedores (inclusive porque está se isolando ao tomar a frente de um processo nefasto);
     
  • Consolidação de uma imagem perante a opinião pública de clube elitista e excludente;
     
  • Exclusão gradual (pelo bolso) do palmeirense como torcedor visitante – uma vez que a reciprocidade tende a se tornar uma medida corrente;
     
  • No caso da parcela da torcida que viaja para ver jogos em outras cidades e estados, o reflexo tende a ser esportivo, uma vez que o time perderá apoio substancial na arquibancada;
     
  • Em longo prazo, este processo de exclusão (ou de limitação da presença) da nossa torcida em outras praças tende a reduzir o apelo do clube pelo Brasil afora – e, no final das contas, isso se reverte em menos receita para a instituição. 
(...)

Como resolver isso?

  • De imediato: o valor cobrado pelo Gol Sul (e, por consequência, do visitante) precisa cair substancialmente, se equiparando ao valor do Gol Norte – e sobre isso eu já escrevi aqui. O Palmeiras não pode, em hipótese alguma, ser o único clube do país que cobra da torcida visitante um valor muito superior ao que é cobrado no setor mais barato do estádio. Além de moralmente condenável, já está mais do que comprovado que a conta acaba sendo paga pela nossa torcida e, em última instância, pelo próprio Palmeiras.
     
  • Em médio prazo: repensar o espaço destinado à torcida visitante (inclusive porque é privilegiada a exposição daquele espaço na transmissão televisiva).

12 abril 2015

É dia 19!

Chegamos à semifinal. Agora é guerra!

Sobre os ingressos (cerca de 1.800) que serão destinados à nossa torcida para o duelo no Itaquerão, breves considerações:

_Se tivesse obtido êxito na sua tentativa de impor um clássico com torcida única no dia 8 de fevereiro (o primeiro dérbi no Palestra em 40 anos), Paulo Nobre teria relegado o Palmeiras a disputar uma semifinal contra o seu maior rival sem torcida.

_É provável que, neste próximo domingo, tenhamos de pagar a conta pelos obscenos valores que têm sido cobrados das torcidas visitantes no Palestra. Já faz tempo que eu venho escrevendo sobre isso, e agora deve vir a fatura.

_No sábado último, a Ponte Preta recebeu os mesmos 1.800 ingressos para sua torcida. Eles foram distribuídos parte para as organizadas e parte para os torcedores mais assíduos no programa de sócio-torcedor do clube campineiro (grupos que, é bem verdade, acabam se confundido). Basta, portanto, boa vontade para que PARTE da nossa carga de ingressos vá para os melhores colocados no rating do Avanti.

_Gostaria de reforçar a palavra "parte" no item acima. É imprescindível que outra parte, substancial, dos ingressos seja direcionada para venda na bilheteria (do Palestra, e não do Pacaembu). Afinal, a presença das organizadas é essencial para garantir a logística e o apoio na arquibancada.

08 abril 2015

Reféns

Complete a lacuna com uma palavra:
“O palmeirense é um ___________ por natureza”.

Algumas opções: torcedor, apaixonado, fanático, otimista/pessimista, corneteiro, sofredor, exigente, aficionado, crítico, devoto, ensandecido, neurótico, bipolar, confiante/cético, intolerante, forte, guerreiro, vitorioso, maluco, vencedor, crédulo/incrédulo, determinado, empolgado, incansável, louco, doente, insistente, persistente, obsessivo, insano... 

Todas podem se aplicar – e algumas centenas mais. Afinal, não há um único tipo de palmeirense, mas vários. Os adjetivos e substantivos sugeridos traduzem, de certa forma, muitas das características normalmente associadas ao torcedor alviverde. São atributos que podem ser vinculados a cada um de nós em momentos distintos.

Mas qual seria a sua palavra se fosse necessário escolher apenas uma?

Antes de responder, sugiro, por favor, que você tenha em mente o significado de “natureza”: 













O que respondeu a criatura que temporariamente preside a Sociedade Esportiva Palmeiras?

Bom, a frase dele, em entrevista para a Folha de S.Paulo, foi a seguinte: “O palmeirense é um consumidor por natureza”.

Consumidor.

Para o mandatário de plantão, a natureza do palmeirense tem pouco a ver com sua atitude em uma arquibancada – ou em qualquer outro lugar. Segundo ele, a natureza do palmeirense não diz respeito a caráter, temperamento, comportamento ou o que quer que seja. Para o rentista que enxerga os frequentadores do novo Palestra não como torcedores, mas como cifrões, o palmeirense pode ser definido não por algo relacionado ao hábito de “torcer”, mas pelo ato de “consumir”.

É uma frase que diz muita coisa nesses tempos em que o torcedor palmeirense é extorquido na hora de entrar em sua própria casa.

Alguém aí haverá de dizer que estou dando muito peso a uma simples declaração, que estou tomando o todo pela parte, que estou fazendo uma interpretação maldosa da terminologia empregada. Sinto dizer, mas está longe de ser isso. Porque o senhor presidente do clube segue, dia após dia, contaminando o Campeão do Século XX, outrora conhecido pelo seu caráter inclusivo, com uma visão excludente e distorcida da realidade. Sequer os números, estes que pretensamente embasam suas demonstrações públicas de esquizofrenia, param em pé, como se pode depreender da mentira por trás dos "6.000 lugares perdidos", das muitas contestações ao obsceno preço dos ingressos e da análise sobre as despesas do novo estádio.

Sob Nobre, aquele que tem obsessão por ser refém (da construtora) ou não ser refém (do centenário, aquele que foi arruinado por seus erros), quem se torna refém é o palmeirense.

Tornamo-nos, todos, inclusive os asseclas, reféns de uma mentalidade elitista, altamente financista e que atribui valor ao palmeirense não pelo apoio que presta ao clube, mas pelo dinheiro de que dispõe para consumir. Tornamo-nos reféns de um presidente que, desconectado da realidade, enxerga o nosso estádio como seu brinquedinho particular – e, como tal, quer definir quem com ele pode ou não pode brincar. Tornamo-nos reféns de uma política de precificação doentia, que limita a capacidade de público do novo Palestra, segrega parte substancial da torcida e tenta excluir a torcida visitante pelo bolso.

Paulo Nobre, como se vê, não entende nada de futebol. Nem do que é ser torcedor. Nem de Palmeiras. E nem mesmo de números, pois tropeça neles a cada nova declaração.

25 março 2015

O futuro em risco

“Não há gratuidade no Allianz Parque”.

A frase se faz onipresente na moderna estrutura que substituiu o antigo estádio Palestra Italia. É quase um lema. É um mantra. É algo de que se orgulhar: ninguém brinca no feudo de Paulo Nobre, o elitista, sem pagar. Ninguém. Nem as crianças.

O que você vê na foto abaixo?


























Eu vejo o futuro da nossa torcida.

Paulo Nobre enxerga uma nota de R$ 100.

...

E nessa outra foto, o que você vê?


























Eu vejo a certeza de um Palmeiras sempre grande.

Paulo Nobre vê o 10 na camisa, já acrescenta outro zero e, pronto, temos outra nota de R$ 100.

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O menino observa o estádio em construção. Nas mãos, um brinquedo. Na cabeça, o amor que ele ainda nem entende direito. Pela frente, todo um futuro de palestrinidade.

20 março 2015

20 de março

20 de março de 2015. Abertura da venda de ingressos para o jogo de despedida do meia Alex. Valores: entre R$ 60 e R$ 150.

20 de março de 2002. Este mesmo Alex marcou, no Jd. Leonor, o gol mais bonito de sua carreira. Lá se vão 13 anos. Desde então, o Palmeiras nunca mais venceu seu inimigo fora de casa. São 21 jogos - e eu, que estive em absolutamente todos estes, não consigo conviver em paz com isso. Pagamos, os palmeirenses que lá estivemos naquela noite de quarta-feira, R$ 10 pelo acesso à arquibancada. 10 reais.

20 de março de 2015. Estão à venda, também, os ingressos para Palmeiras x SPFW, o segundo clássico do redivivo estádio Palestra Italia, também em uma quarta-feira. Pelo acesso à arquibancada, o torcedor visitante pagará R$ 200. 200 reais. 20 vezes mais!

Corrigido para 2015, o valor cobrado pela arquibancada naquele clássico de 2002 se aproximaria dos R$ 25 (R$ 25,98, pelo IGP-M; R$ 22,75 pelo IPC-A; menos até se levarmos em conta outros índices).

...

Paulo win-win Nobre, é mais do que necessário lembrar, estragou o primeiro clássico disputado no novo Palestra Italia, também o primeiro dérbi em 40 anos na nossa casa. Fazendo as vezes de capacho do Ministério Público, foi ele o artífice da tentativa de impedir a vinda da torcida visitante. Foi ele, por fim, o cúmplice do massacre de que foi vítima nossa torcida ali bem na rua da nossa casa. Mais de um mês se passou e Nobre não se manifestou sobre.

Antes mesmo de concretizada a emboscada de 8 de fevereiro, eu já questionava um ponto: o ingresso a R$ 200 para a torcida visitante. Como destacado bem lá atrás, a conta, ao final, será paga pela própria torcida palmeirense, por ocasião da represália que certamente virá quando formos enfrentar nossos adversários fora de casa.

Ocorre, no entanto, que, em sua política de precificação doentia e desconectada da realidade, Nobre só enxerga cifrões. Ele vê o palmeirense não como torcedor, mas como um mero consumidor. Daí então que o sujeito tem valor no momento em que é extorquido para deixar R$ 200 nos cofres do clube para pisar no setor atrás do gol "Sul", mas não tem assim tanta valia quando vai aos estádios de seus rivais para empurrar o Palmeiras às vitórias que tanto escassearam nos últimos anos.

Não à toa, Nobre declarou, bem recentemente, não fazer questão de solicitar aos outros clubes a cota de ingressos a que teria direito o Palmeiras nas partidas como visitante. Agora fica fácil entender o porquê: o palmeirense que vai representar o clube no Jd. Leonor, no Itaquerão ou em qualquer outra cancha Brasil afora não contribui para o clube como consumidor, mas sim como torcedor. E isso não interessa à sanha financista do senhor Paulo win-win Nobre.

...

É bem provável que o público presente ao segundo clássico do novo Palestra fique bem abaixo do que poder-se-ia esperar de tal duelo. Para além do preço obsceno, aponto três agravantes: o horário das 22h, complicando o retorno de muitos que dependem de transporte público; a transmissão ao vivo em TV aberta; e a proximidade do fim do mês, que deixa o orçamento bem apertado. Mas Nobre, este ser que vive recluso em seu mundinho apartado da realidade, parece desconhecer o significado de termos como ônibus, Metrô e salário.

...

Ainda que seja pequeno o público, o que vale para esta corja elitista é a arrecadação. Se a pressão do público for menor, tampouco importa. Se tivermos uma torcida menos atuante nos jogos como visitante, não haverá de ser nada. Ganhe ou perca o time dentro de campo, sempre haverá os deslumbrados a enaltecer a renda de R$ 2 milhões, o reforço 103.000 do Avanti, a camisa mais valiosa etc. Afinal, dirá Paulo Nobre, o importante é a "parceria win-win".

12 março 2015

A geração $

100.000 sócios-torcedores, a camisa mais valiosa do Brasil, R$ 2,5 milhões de renda em qualquer joguinho. A "maior contratação da temporada", ingressos a R$ 200, novas modalidades de patrocínio. 19 reforços, ticket médio nas alturas, sorvete Diletto a R$ 10. Liderança no ranking de arrecadação, meta de chegar a 160 mil sócios, "não há gratuidade no Allianz Parque". Top 10 do mundo, porco inflável, a mentira dos 6.000 lugares "perdidos". Avanti 5 estrelas, omoplata, R$ 700 mil para jogar em casa. Mais renda que os campeonatos Carioca e Mineiro juntos, “mas o Santos só arrecadou R$ 360 mil no clássico”, ampliação da exposição dos parceiros. R$ 23 milhões para cá, naming rights para lá, neófitos falando em RGT (é patético isso...) depois de terem passado os últimos anos dizendo que ela podia fazer o que quisesse por “pagar caro pelo futebol”

Números, números, números. Há aí uma nova geração de torcedores que os adora. Mas não os entende. Vê neles um fim e não um meio. Nesse processo doentio, muito se perde.

A lógica financista que tomou conta do Palmeiras a partir de 2013 quase nos rebaixou no ano do centenário (e fomos, como bem lembrado ontem pela insignificante torcida do Santos FC, salvos por um rival); agora, ao que parece, vivemos a fase de "harvest", para usar um termo muito caro aos rentistas, especuladores e que tais.

Não há como discutir a importância do crescimento das receitas. É louvável que depois de dois anos de ostracismo e compromisso com o erro, a gestão atual tenha catapultado o faturamento do clube a um patamar nunca antes visto. Ok, que se reconheça isso.

O problema todo é que a lógica financista vem alimentando uma geração, toda ela refugiada nas redes sociais, que toma os números como finalidade e não como um meio para obter aquilo que efetivamente importa: um time à altura de nossa história, vitórias (em clássicos e contra outros grandes) e títulos.

A (parte da) torcida que aplaude renda (eu nunca vou esquecer isso, seus filhos da puta miseráveis!) parece imune à sucessão de maus resultados que o time vem experimentando em clássicos estaduais e nos confrontos contra os outros clubes grandes do país. "O time está em formação", "estamos em reconstrução", "essas derrotas no começo de campeonato são normais". Poderia parecer só conformismo, mas é o mais puro deslumbramento: não raro, a relativização é apenas o começo; os cifrões virão na sequência.

Deixá-los-ei com outros números, os que valem:

_Na gestão Nobre, o Palmeiras venceu 1 clássico em 15 disputados.

_Pior que isso: dos últimos 23 clássicos, o Palmeiras venceu 1 (este mesmo supracitado). 1 em 23! É, certamente, a pior sequência histórica já vivida por um dos grandes paulistas na somatória dos confrontos contra os outros rivais.

_Desde 2013, a partir do início da gestão Paulo Nobre, o Palmeiras se deparou 31 vezes contra outros times grandes. A campanha é vexatória: 3 vitórias (contra SPFW e Grêmio, como mandante; e Botafogo, como visitante), 9 empates e 19 derrotas. 3-9-19!

_O Palmeiras não vence o SCCP na capital paulista há longos 13 jogos.

_Retrospecto dos últimos 18 clássicos entre Palmeiras e SCCP: 1 vitória do Palmeiras, 8 empates e 9 vitórias do SCCP. A nossa vantagem histórica, que era bastante sólida, se esvaiu.

_Contra o SPFW, o Palmeiras amarga um tabu que parece infindável: são 13 anos e 21 jogos sem vitória no Jd. Leonor. Para contrastar com isso, temos o SCCP ostentando uma marca oposta contra o mesmo SPFW: 13 partidas de invencibilidade como visitante.

_Contra o Santos, o pequeno Santos contra o qual temos vantagem até dentro do amontoado de laje, conquistamos apenas uma vitória nos últimos nove duelos.

_Ante o Fluminense, notório saco de pancadas nosso em SP ou no Rio, acumulamos uma sequência impressionante: um empate e sete derrotas nos últimos oito confrontos.

_Contra o Atlético/MG, cujo histórico nos dá vantagem mesmo nos jogos no Mineirão, chegamos ao fundo do poço: sete derrotas (quase todas inapeláveis) nos últimos sete encontros.

Eu poderia aqui listar mais algumas sequências catastróficas, mas imagino que todos já tenham captado a ideia.

Para a imensa maioria dos 100.000 sócios-torcedores, pode ser que nada disso tenha muita importância. Pode ser que não se sintam assim tão incomodados com as derrotas em série, com os números de nossa história sendo solapados por atuações débeis e covardes, com um gigante virando motivo de piadas para torcidas as mais insignificantes. Logo alguém haverá de lembrar que lideramos o ranking de renda, que temos uma marca notável no aumento de sócios-torcedores, que a camisa alviverde é a “mais valiosa” do país etc.

Entretanto, a derrota tem efeitos insuportáveis - não pela derrota em si, mas pelo contexto em que ela está inserida - para os 700 torcedores que ontem estivemos no amontoado de laje da Baixada e para todos aqueles que não sucumbiram a essa inversão de valores.

Para a geração $, não deve fazer muita diferença o resultado em campo; valem os cifrões. Importante é comparar os "míseros" R$ 360 mil da renda do Santos FC aos R$ 2 milhões de bilheteria que teremos no próximo domingo. O Palmeiras perdeu mais um clássico? Ah, não tem problema; vamos aí publicar um meme no Face porque domingo é dia de fazer uma selfie no estádio novo e dar um jeitinho de aparecer no telão widescreen de alta definição – “é o maior do Brasil, sabiam?”. É meio que isso aqui: “Hoje em dia, os torcedores buscam uma experiência que vá além do futebol. Eles querem uma vivência inovadora e empolgante, mas que também traga conforto e comodidade, que seja algo agradável para todos os públicos. Por isso buscamos oferecer serviços diferenciados e com alto padrão de qualidade, atrelando entretenimento e culinária ao futebol".

É...

Enquanto os deslumbrados das redes sociais vomitam atrocidades, fomos os 700, muitos dos quais excluídos do novo estádio por uma política de preços elitista e desconectada da realidade, que representamos o Palmeiras diante de um rival que antes era batido com enorme facilidade.

Quando o alviverde vai à cancha, não tem “experiência que vá além do futebol”; tem só o futebol mesmo. Nada de “vivência inovadora e empolgante”; tem, de novo, só o futebol. Não tem “conforto”; a verdade é que mal se vê o gol a partir da laje do portão 21. Não tem “comodidade”; e nem queremos que tenha. E, claro, não há “serviços diferenciados e com alto padrão de qualidade”; trocamos tudo isso, por favor, por um time com atitude e que volte a fazer do Palmeiras o gigante que sempre foi.

“Entretenimento e culinária atrelados ao futebol”? Não, não, obrigado. Porque, no final da noite, confinados entre o campo e o portão 21 do amontoado de laje, somos nós, os 700 de sempre, que temos de aguentar uma torcida de primário (aquela das sociais) a cantar aquilo que ainda não conseguem entender aqueles que aplaudiram renda: dentro de campo, o Palmeiras virou uma piada.

Ao final de mais uma jornada fracassada, madrugada adentro, o consolo: não chovia na Baixada. Ao apagar dos refletores, restamos poucos por ali: os 700 de sempre, alguns PMs, as cabines de imprensa ainda iluminadas, a equipe de manutenção desmontando tudo no gramado. O cenário, desolador, só fez reforçar uma convicção: os números e cifrões de que se vangloriam alguns de nada valem enquanto não formos representados por um time capaz de devolver ao Palmeiras a supremacia contra seus rivais.

Finalizo, pois, com uma citação do Paulo Silva Jr.: "Não vou contar que já não me surpreendo com militante de naming rights; nem com torcedor de likes no canal do clube na internet; muito menos com quem celebra o aumento do número de parceiros da lanchonente do estádio: neste noite, aplaudiram a renda do jogo. E isso sim vai ser difícil de esquecer.

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Inspirações para este post:

Arena e o Teatro da Imposição, do Leandro Iamin
Futebol, Século II, do Paulo Júnior

05 março 2015

Uma pergunta

Há, antes e depois dos jogos no redivivo Palestra, dois grandes fluxos de torcedores a percorrer o Shopping Bourbon Pompéia: um, maior, da Turiassu para a Matarazzo e depois fazendo o caminho de volta; outro, menor, no percurso Matarazzo-Turiassu-Matarazzo. Uma vez lá dentro, se misturam todos, um mar verde em meio às lojas. Isso ocorre, em larga medida, porque boa parte do público se concentra na Turiassu, mas entra pelo portão do outro lado (Gol Norte). As organizadas, por exemplo, têm percorrido o estacionamento do centro de compras levando suas faixas e baterias. Na ida e na volta.

Entendo que a estrutura do estádio não permite o acesso ao setor Gol Norte pelo portão principal, da Turiassu. Ou, de outra parte, a entrada no setor Gol Sul pela Matarazzo. Mas a pergunta que eu coloco aqui é a seguinte:

O que impede a abertura dos acessos internos ao final das partidas?

Refiro-me aos portões que, abaixo da arquibancada, separam os espaços de circulação entre cada um dos setores inferiores (notadamente entre Norte e Oeste).

Tal providência, que poderia facilitar o escoamento do público presente ao estádio, foi adotada nos dois primeiros jogos (ainda em 2014), mas deixou de ser observada a partir deste ano.

Gostaria de esclarecer se há alguma determinação de ordem prática para que isso não aconteça. Ou se simplesmente esqueceram de permitir a circulação do público por ali após os jogos.

Se não houver impeditivo técnico, caberia então a liberação dos portões internos para facilitar o escoamento após os jogos. E, para mim e para muitos outros, todo aquele caminho por dentro do shopping seria substituído pela mais do que bem-vinda sensação de deixar a nossa casa já na boa e velha rua Turiassu.

O palmeirense ficaria agradecido.

02 março 2015

BR/2015: tabela detalhada

A CBF divulgou a tabela do Campeonato Brasileiro/2015, mas, como de costume, trata-se da "versão básica", o que significa dizer que não traz ainda o desmembramento de datas e horários - isso acontecerá mais adiante, espera-se que em março ainda, com o anúncio de detalhamento das dez primeiras rodadas e, na sequência, em lotes de três ou quatro jornadas por vez. Isso ocorre basicamente porque, aos poucos, CBF e Rede Globo vão distribuindo os jogos nos dias e horários que forem mais convenientes para os interesses da emissora detentora dos direitos de transmissão.

O documento recém-divulgado é essencial para torcedores que viajamos para ver o time jogar fora de casa, porque já permite algum planejamento na definição de viagens e especialmente na compra de passagens para outros estados. Mas é inconclusivo, à medida que não revela quais jogos acontecerão no sábado ou no domingo, na quarta ou na quinta.

Daí então que, anualmente, este blog faz um exercício para antecipar os futuros desmembramentos da tabela, tendo um índice de acerto superior a 80% - foi assim no ano passado e também nos anteriores.

Desse estudo resulta a tabela detalhada do Palmeiras no BR/2015:


























Observem, por favor, que o material acima não pode ser tomado como oficial, definitivo ou infalível, uma vez que o desmembramento compete às entidades responsáveis. Mas é um bom referencial, em especial porque apoiado nos seguintes elementos:

_interesse da TV (que duelos podem ter mais apelo não apenas na transmissão para SP, mas também na grade para RJ, MG, PR e RS; o que faz mais sentido na TV aberta e no PPV; qual é o histórico recente em relação a cada time);
_concorrência com outros jogos na mesma cidade (em SP, teremos sempre um jogo no sábado e outro no domingo; em havendo um clássico na rodada, é certo que este ocorrerá no domingo); 
_intervalo entre duas rodadas sequenciais (se um time joga na quinta, não pode jogar no sábado, por exemplo);
_datas da Libertadores/Copa do Brasil (em especial para os duelos decisivos ou que envolvam longas viagens);
_histórico de definições de anos anteriores (decisões tomadas por CBF ou Globo em anos anteriores tendem a balizar as definições para este próximo Brasileirão);
_preservação do modelo do ano anterior, com os seguintes dias e horários: quartas e quintas, 19h30, 21h e 22h; sábados, 18h30 e 21h; domingos, 16h e 18h30.

Há um último elemento que pode alterar bastante o cenário apresentado: o desempenho dos times envolvidos. Mas, como isso só pode ser avaliado mais à frente, é o caso de fazer ajustes nas projeções de tempos em tempos.

Em alguns casos, a tarefa é fácil (sendo o Palmeiras mandante em uma rodada com SCCP x SPFW, é inevitável que nosso jogo aconteça no sábado, às 18h30; existindo um duelo entre outro grande daqui e um carioca, a mesmíssima coisa); em outros, no entanto, é preciso cruzar todas as variáveis apresentadas e, não raro, apelar para, digamos, uma conclusão a partir de evidências de anos anteriores. Por isso, além do detalhamento, este blog procura apresentar também o percentual estimado de concretização do dia e horário de cada rodada. Nos casos com probabilidade acima de 80%, dá para comprar a passagem desde agora; nos demais, é melhor esperar o anúncio oficial.

26 fevereiro 2015

Precificação: equívocos e consequências











Cena comum durante os jogos no novo estádio: excluídos por uma política de precificação higienista, centenas de palmeirenses acompanham o clássico contra o SCCP na esquina da Turiassu com a Caraibas; dentro do estádio, os setores centrais (a R$ 350!) ficam vazios.

Precificação. Por mais extenso que fosse, um texto aqui publicado dificilmente daria conta de abranger todos os elementos relevantes para a discussão sobre como estabelecer o preço adequado à relação entre oferta de um produto ou serviço e a demanda por ele. Por isso, vou simplificar a apresentação do assunto: em qualquer lugar minimamente sério, a precificação é uma decisão racional, baseada em estudos de mercado e pautada pela sustentabilidade no relacionamento entre quem vende e quem compra.

No Palmeiras sob o comando de Paulo Nobre, no entanto, a precificação dos ingressos para jogos do clube é um processo impressionista e personalista. Desde o início da gestão, os preços partiram sempre da mente doentia do mandatário, sem qualquer amparo de estudos junto à torcida ou de avaliações sobre a razoabilidade da tabela praticada. Lembrem-se, por exemplo, da arquibancada a R$ 60 na abertura da Série B, em Itu. Ou dos mesmos R$ 60 para jogos do Brasileiro do ano passado, com o time caindo pelas tabelas.

É bem singela a explicação para este descompasso: Paulo Nobre é o menino mimado que vê o novo Palestra como seu brinquedinho e, como tal, quer decidir quem com ele pode ou não pode brincar. Por conta própria e sem dar ouvidos a seus cúmplices (a reclamação é deles), Nobre define os preços vigentes no novo estádio da S.E. Palmeiras. E faz isso não com base em estudos ou em alinhamento com seus pares, mas a partir de sua visão distorcida de mundo.

Se Nobre não tem o devido cuidado quando se trata do relacionamento com o patrimônio maior da S.E. Palmeiras, é o caso então de apontar as inconsistências, os problemas e as obscenidades destes primeiros meses desde o retorno para casa, identificando, sempre que possível, os pontos em que as imposições de Nobre flertam com a insanidade:

_ O “setor popular” não pode custar R$ 80 qualquer que seja a circunstância. Muito menos R$ 100. Não há nada de popular quando se cobra 10% de um salário mínimo para uma arquibancada. Até porque, e isso é o mais grave, o preço cobrado por este setor acaba impactando todos os demais, tornando inviável qualquer relação sustentável entre clube e torcedor.

_ A diferença de preço entre a Cadeira Gol Sul (Turiassu) e a Cadeira Gol Norte (Matarazzo) não pode, em hipótese alguma, superar os 20%. Questão de lógica: em lugar algum do mundo tem-se a curva atrás dos gols como um setor privilegiado. No nosso estádio, no entanto, a diferença entre as duas ‘curvas’ é gritante: entre 75% (R$ 80 x R$ 140) e 212% (R$ 80 x R$ 250). Por sinal, a disparidade nos percentuais em jogos diferentes evidencia o descuido e a falta de planejamento.

_ O ingresso da Cadeira Gol Sul a preços extorsivos implica ainda em uma condição altamente desfavorável para as torcidas visitantes. A conta, como demonstrado anteriormente, será paga pelos palmeirenses que viajamos para ver o alviverde como visitante e também pelos torcedores locais, que terão de pagar preços astronômicos para ver o Palmeiras em suas cidades.

_ Há, ainda, uma distorção que diz respeito à tese de que os setores superiores centrais são tão menos privilegiados que os inferiores (a ponto de justificar diferenças acintosas entre os valores cobrados). Não há nada que justifique isso.

_ O Setor Oeste deveria ter um preço ligeiramente superior ao do Setor Leste. Três são os motivos: (I) o Setor Oeste tem acesso melhor, pela Turiassu; (II) quem fica no Setor Oeste não precisa se preocupar com o sol; e (III) preços menores no Setor Leste estimulariam a ocupação do espaço que é o primeiro a ser filmado pelas câmeras de TV.


Agora, em dois pontos, o problema mais grave:

_ Vivemos agora a transição de um modelo de setorização 80x20 para um modelo de setorização 20x80. Explicando: os estádios mais antigos sempre foram regidos por uma lógica em que a arquibancada respondia por algo em torno de 80% da capacidade, ficando os 20% restantes para as “numeradas” ou “sociais”. Tinha-se, a partir disso, uma clara distinção entre o público presente a cada um dos setores – e tal distinção, frise-se aqui, estava alinhada com a estratificação social de nosso país. Era assim no antigo Palestra (as numeradas coberta e descoberta comportavam não mais do que 5 mil lugares) e também no Pacaembu (com as cadeiras laranjas tendo um preço não tão abusivo na comparação com arquibancada principal e tobogã). As novas arenas, no entanto, acabam por subverter tal lógica, elevando sobremaneira os preços não apenas das áreas mais privilegiadas, mas de todas as demais. O que se tem hoje no Palestra é um único ambiente (a Cadeira Gol Norte) com preços “populares” e todo o restante do estádio com preços obscenos. É um modelo insustentável, até porque os ingressos “populares”, pouquíssimos, se esgotam rapidamente e ficam sempre com os mesmos torcedores – aqueles que estamos melhor colocados no rating do Avanti (o que é justíssimo, diga-se de passagem). Para os demais, impõe-se uma “nota de corte” das mais severas.

_ Ampliando a discussão iniciada no item anterior: é possível (e até necessário) ter um setor muito caro (R$ 200 ou R$ 350, vá lá) desde que ele tenha um tamanho proporcional ao total de pessoas aptas e dispostas a pagar por isso. Algo como a cadeira azul do Pacaembu. Ou como a numerada coberta do Palestra. Mas é insustentável praticar preços assim tão elevados em 40% dos lugares disponíveis no estádio (no caso, os setores centrais Leste e Oeste). Repito: estes dois setores, que têm ficado reiteradamente vazios, respondem por quase 40% dos assentos do estádio.


Da conjunção de todos esses fatores, emerge um cenário dos mais preocupantes. Tendo em vista especialmente o preço mínimo (R$ 80) e o modelo que faz com que os bilhetes populares sejam apenas 20% do total, temos uma “nota de corte” para o público ‘comum’ (leia-se “não Avanti estrelado”) que deseja ir ao estádio: R$ 120 (o indigesto preço do setor superior).

Afinal, os cerca de 6.200 ingressos (bem menos que 20%) da Cadeira Gol Norte se esgotam rapidamente, ficando sempre com os melhores colocados no rating do Avanti. Na sequência disso, um torcedor eventual, daqueles que só pode ir aos jogos de vez em quando, passa a se deparar com um cenário em que somente conseguirá ver o Palmeiras em campo se se dispuser a pagar R$ 120. Se quiser levar os filhos, aí a tarefa se torna inviável.

Em jogos com maior procura, chegam ao fim rapidamente também os setores superiores e a Cadeira Gol Sul. Desta feita, restará a este ‘torcedor eventual’ apenas e tão somente a opção de ser extorquido com o desembolso de R$ 200 (ou R$ 350) cobrados pelos setores Leste e Oeste.


Daí então temos o seguinte paradoxo:

Existe uma enorme demanda de pessoas querendo conhecer o novo estádio, mas ele segue não recebendo público total (com as cadeiras centrais às moscas, mesmo em um clássico contra os gambás) porque não há quem consiga encarar os preços doentios praticados por Nobre.

Não à toa, a esquina da Turiassu com a Caraibas tem ficado repleta de torcedores durante os jogos, todos eles alijados do estádio por essa política de precificação higienista e excludente. Da mesma forma, é forçoso observar que muitos torcedores de outros tempos deixaram de ir ao estádio pela impossibilidade de bancar os valores propostos.


Aos efeitos disso:

_ Em curto prazo, tem-se os setores centrais (aqueles que aparecem na TV) vazios e perde-se uma receita que poderia ser alcançada com valores mais racionais. Perde-se também a pressão de uma torcida mais perto do campo (tanto no centro quanto atrás do gol da piscina);

_ Em médio prazo, cria-se uma relação pouco saudável com o torcedor, que se vê coagido a estabelecer um relacionamento contratual (Avanti) se quiser preservar o seu direito de ir ao estádio. Para muitos, nem isso será o bastante, uma vez que, torno a repetir, a modelo 20x80 limita os preços “populares” a um pequeno contingente da torcida. O resultado é um distanciamento entre clube e torcedor.

_ Em longo prazo, perde-se a conexão com a “massa”. Caso os alienados e os elitistas não saibam, é o vínculo com a “massa” que faz o Palmeiras ser o gigante que é. É o que torna o Palmeiras um clube com torcida em todo o país. É o que garante a nossa representatividade – porque os títulos já não fazem parte da rotina.


Eu escrevi, em post do ano passado, que o Palmeiras não resistiria a mais dois anos de Paulo Nobre. Torno a repetir agora. Porque, imerso em seu mundinho apartado da realidade, Nobre acaba por afastar da arquibancada do Palestra Italia o torcedor com menos recursos – que, não custa dizer, é a imensa maioria. Pior do que isso: os preços abusivos representam também um processo de exclusão das crianças, em especial as mais humildes – porque um pai pode até fazer um esforço eventual para bancar a sua entrada, mas dificilmente conseguirá levar seus filhos ao estádio. E é terrível imaginar os efeitos disso para a nossa próxima geração de torcedores.

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Crédito da foto: Marco Bressan (Teo)

19 fevereiro 2015

Painel do Promotor

Na semana passada, publiquei um post sobre a emboscada de que fora vítima a torcida do Palmeiras no domingo anterior, antes do clássico contra o SCCP. A Folha de S.Paulo aparece bastante em toda a operação de manipulação midiática, tendo especial destaque Bernardo Itri, responsável pela coluna Painel FC do Promotor.

Eis então que, passado o Carnaval, a Folha retomou assunto.

Primeiro, no dia 18/02, com a capa do caderno de esportes sendo ocupada não pela cobertura do SCCP x SPFW válido pela Libertadores, mas por uma matéria (mal) requentada sobre mortes decorrentes de brigas entre torcidas. A foto principal, completamente inadequada, mostra o massacre de que fomos vítimas no domingo, 8 de fevereiro:


























O conteúdo seria apenas pueril, não fosse pelo artigo (repleto de argumentos débeis) do senhor doutor Paulo Castilho e pela tentativa de insuflar a opinião pública a partir da exaltação de um senso comum rasteiro e sem quaisquer elementos novos.

É meio que assim:

"-Acabou o Carnaval e estamos sem manchete de capa? Então procurem aí aquele promotor das torcidas e vamos enfiar um número impactante sobre mortes envolvendo esses vândalos travestidos de torcedores.
-Qual promotor? Aquele que virou deputado?
-Não, não, aquele mais novo que aparece quase todo dia no Painel FC.

-Ah, vou falar com o Itri..."

Deu nisso aqui:


























Entre moçoilas vestidas de policiais ("Mas é Carnaval! Não me diga mais quem é você! Amanhã tudo volta ao normal/ Deixa a festa acabar/ Deixa o barco correr..."), a crise econômica, os ricaços do HSBC (não, isso não pode!) e os editoriais indignados de cada dia, a falta de notícia foi parar na manchete do principal jornal do país!

Se tiverem coragem, confiram aqui os textos que produziram tal aberração: um abre preguiçoso e sem qualquer contextualização; um artigo abjeto escrito pelo senhor doutor promotor; um contraponto que quase evapora diante da tentativa de instaurar um clima de guerrilha urbana; e um catadão nos arquivos da Barão de Limeira.

Não há, em momento algum, qualquer reflexão sobre quem são as figuras envolvidas. Por que, afinal, este tal Castilho, que diz atuar há uma década na causa, nada conseguiu fazer para mudar o cenário? São, afinal, 10 anos! Por que suas tantas medidas não surtiram qualquer efeito sensível para reduzir essa tal violência? Por que ele aparece sempre no noticiário envolvendo um mesmo clube e um mesmo estádio? Os argumentos que ele apresenta são válidos? E as evidências, procedem? Qual é o histórico de sua atuação nesta última década? Que possíveis interesses particulares poderiam estar por trás de sua investida? Por que o senhor doutor insiste na defesa de suas pretensas ideias sobre o bem coletivo com base na primeira pessoa ("eu acho", "eu acredito", "eu penso que")? Existe, por acaso, alguma inadequação entre o que ele propõe e o que está a seu alcance a partir da legislação vigente? Por que a imprensa não ouve o outro lado (no caso, o torcedor)?

E a pergunta mais importante: vocês já pensaram, caros colegas jornalistas, no quanto a permanência deste assunto no noticiário ajuda a garantir ainda mais visibilidade para Paulo Castilho?

Digo, pois, aos senhores jornalistas que uma breve pesquisa aí nos arquivos da Barão de Limeira (ou no Google mesmo) responderia muitas dessas perguntas.

Mas a coisa piora, senhores. Chegamos ao dia 19/02. Depois de dedicar as notas principais do dia anterior a mais alguns números fantasiosos fornecidos por Fernando Mello, ex-titular desta mesma coluna, Bernardo Itri abre ainda mais espaço para o senhor doutor Paulo Castilho. Vejam, pois, o Painel do Promotor desta quinta-feira:






















Quanta besteira para tão pouco espaço...

"Elaboração de um projeto de lei", "restrição de benefícios" (quais?), "Comissão do Estado para fiscalizar as torcidas", "audiência com a SSP", "aproximação com o governo"...

Eu nem vou comentar a última nota, de uma fragilidade acintosa.

Até porque, pouco adiante, a Folha dispara uma página inteira para entrevistar Marco Aurélio Klein - sobre quem evitarei tecer comentários por ora.


























Tem tanta coisa errada e  tantos absurdos que eu vou evitar entrar nos detalhes. Vou me ater a dois breves parágrafos, logo no início, para ir direto ao ponto:





















Vejamos a situação:

_George Hilton, atual ministro do Esporte, nunca deve ter pisado em uma arquibancada.
_A (in)experiência de Klein, o redivivo, deve ser similar à do ministro.
_Se estão se baseando em um relatório escrito há nove anos, antes mesmo de a Copa do Mundo/2014 ter sido confirmada no Brasil, então não dá para esperar lá grande coisa.
_Pior ainda: se o tal documento é inspirado no Relatório Taylor, estão tomando como paradigma uma fraude sem precedentes:










À época, sob enorme comoção, contou-se uma mentira amparada em um documento formal e em muita manipulação midiática. Ela perdurou durante 23 anos, até que a verdade viesse à tona.

E eu, já de saco cheio de ficar lutando sozinho contra toda essa corja, encerro assim: