10 dezembro 2009

2000-2009

A pergunta do penúltimo post rendeu 25 comentários até o momento. É quase unânime a preferência pelo time 1, que nada mais é do que a escalação-base do primeiro semestre de 2000, que deu início à década que finda agora. Um leitor solitário ficou com o time 2, que é logo o que acaba de perder o título mais ganho que o Palmeiras conseguiu perder na história. Há quem vote no time de 2000 mesmo considerando o de 2009 tecnicamente superior. Justo.

Valia, como eu disse, qualquer critério, e é evidente que pesa agora a decepção com o fracasso alcançado pelo time 2. Ainda assim, nota-se claramente que as pessoas atribuem ao time 1 qualidades que não eram vistas pelo próprio palmeirense naquele 2000 que se iniciava sob enorme desconfiança.

É curioso falar assim de um clube que conquistara no ano anterior o seu maior título, a Libertadores. Mas acontece que estamos falando de Palmeiras e outros fatores pesaram para que a torcida olhasse para aquele grupo com enorme receio. A perda do Mundial contra o Manchester (30.11.1999) e o vice-campeonato da Mercosul (20.12.1999) eram os principais, mas não os únicos.

A base de 2000, que foi escolhida como superior à atual pela maioria dos leitores, tinha acabado de perder peças fundamentais. De uma só vez saíram Evair, Oséas, Paulo Nunes, Zinho, Júnior Baiano, Cléber, Rivarola e Zé Maria. Uma debandada sem precedentes, marcando o início da era do “bom e barato”. Sim, porque a Parmalat estava de saída e a diretoria (lembram-se do Lapola?) anunciou que não faria contratações de peso.

Edmundo, brigado com Eurico Miranda, queria sair do Vasco e ficou próximo do Palmeiras. O sapo-boi, no entanto, vetou a contratação (vivíamos sob um regime ditatorial, lembram disso?).

No começo da temporada, o principal reforço, acreditem!, foi o atacante Basílio, então com 27 anos e já careca, vindo do Coritiba. Com ele, chegou também o zagueiro Índio. No decorrer do primeiro semestre, chegaram o zagueiro Argel, o volante Fernando (sim, aquele), o lateral Nenem (voltando de empréstimo) e os atacantes Marcelo Ramos (trocado por Jackson) e Luís Claudio. Pouco, muito pouco, diante dos nomes que deixaram o clube.

Eis então que o Palmeiras se reapresentou sob protestos inflamados da Mancha, e chegou ao ponto de contar com apenas 15 jogadores profissionais para a estreia no Torneio Rio-São Paulo. Mas tínhamos Felipão, que, mesmo contestado pela maior organizada do clube (e este é o maior erro já cometido pela Mancha), era Felipão.

Com ligeiras alterações em relação ao apresentado no post anterior, o time, completamente desacreditado, abriu a temporada em São Januário, contra o Vasco de Romário e Viola: empate heróico em três gols na noite (19h) de 23 de janeiro, um domingo.

Isso em nada atenuou o clima pesado para o primeiro jogo da temporada em São Paulo. Noite chuvosa, 27 de janeiro. Pacaembu, 20h30. SCCP x Palmeiras. O clássico foi visto por apenas 5.680 torcedores, então o menor público da história. Lembro-me nitidamente da conversa que tive com outros três amigos em plena avenida Paulista, no Pompéia (478P/10), a caminho do Pacaembu: o clima era de desolação e esperávamos por uma temporada bastante difícil. No jogo, derrota por 2 a 1; o pessimismo parecia se justificar.

Três dias depois, já no Palestra, jogo contra o Fluminense. O time leva 0 a 2 no primeiro tempo (Roni e Magno Alves) e deixa o campo sob protestos virulentos da Mancha. No intervalo, Felipão apela para Basílio. A virada vem em seis minutos, com dois gols de Euller e um de Asprilla. No final, mais três gols (outros dois de Euller e um de Basílio) decretam o 6 a 2. Os protestos no meio do jogo, no entanto, fizeram estragos e Felipão chegou a declarar guerra à Mancha.

Vieram então outras três vitórias incontestáveis: 2 a 1 no Vasco no Palestra (Basílio e Asprilla x Romário), 3 a 1 nos gambás no Jd. Leonor (3 de Alex, para míseros 6.327 pagantes) e 2 a 0 sobre o Fluminense no Maracanã (e fomos com o time reserva).

Contra o Botafogo, na semifinal, empate sem gols no Maracanã e vitória por 3 a 1 no Palestra (Sampaio, Euller e Alex). Na final, novamente o Vasco, com Edmundo, Romário e Viola. No Rio, 2 a 1 para o Palestra, com gols de Sampaio e Pena (sim, o Baixinho deixou o dele). Em SP, no Jd. Leonor, na noite de 1º de março, a redenção, com uma das melhores atuações que eu já vi em um único tempo de jogo: 4 a 0, gols de Pena, Argel, Euller e Arce. Veio o título do Rio-SP quando menos se esperava algo do time.


O gol de Pena, belíssimo, contrasta com a camisa horrível

A temporada de 2000 foi, salvo engano improvável, a mais movimentada da história alviverde. Foram 92 jogos (45 vitórias, 24 empates e 23 derrotas) e sete competições diferentes (Rio-SP, Paulista, Libertadores, Copa do Brasil, Copa dos Campeões, Copa João Havelange/Brasileirão e Copa Mercosul).

Os números, que revelam certa irregularidade, não são fiéis aos resultados: dos sete campeonatos, o Palmeiras chegou à final em quatro, parou na semifinal em mais um e ficou em fases já avançadas em outros dois. Bastante razoável, convenhamos, para quem não esperava nada no início da temporada.

O ano teve momentos marcantes (para o bem e para o mal):

Rio-SP: o título acima mencionado.

Libertadores: campanha irregular na fase de grupos, duelos sofridos contra o Peñarol (vitória nos pênaltis), vitórias consistentes contra o mexicano Atlas, a épica e inigualável eliminação dos gambás (desnecessário entrar em detalhes) e a perda do título apó dois empates contra o Boca.

Paulista: campanha tortuosa nas fases anteriores e eliminação para o Santos na semifinal (depois de estar vencendo por 2 a 0 até os 25' do segundo tempo, conseguimos tomar três gols, um deles de Dodô aos 45').

Copa dos Campeões: um time destroçado, em fase de transição depois da saída de Felipão e da perda da Libertadores, foi ao Nordeste sem grandes pretensões. Eliminou Cruzeiro (3 a 1 e 1 a 1), Flamengo (1 a 2 e 1 a 0, com vitória nos pênaltis e o odiado Taddei como herói) e Ixpót na final (2 a 1, Asprilla e Alberto).

Copa João Havelange/Brasileirão: a campanha pífia na primeira fase foi compensada pela reação dos últimos jogos e pelo fato de 12 times se classificarem. Nas oitavas, tivemos pela frente o SPFW, eliminado depois de empate em 1 a 1 no Pacaembu e vitória alviverde por 2 a 1 no Jd. Leonor (com gol salvador, de novo, de Galeano). Veio então o desconhecido São Caetano. Dois jogos no Palestra: um 3 a 4 e um 2 a 2 eliminaram o Palmeiras, que, ainda assim, foi aplaudido pela torcida.

Copa Mercosul: campeão em 1998 e vice em 1999, o Palmeiras foi derrubando todos os adversários até a final contra o Vasco (de novo). Depois de perder em São Januário (2 a 0) e vencer no Palestra (1 a 0, gol de falta de Nenem), tivemos o terceiro jogo. Vocês se lembram do que aconteceu, certo?

Aí vocês podem estar agora se perguntando: porra, mas o que você quer dizer com isso tudo?

Ok, confesso que não sei ao certo, porque tudo aqui parte de impressionismos. Mas eu diria que esse post nasceu de uma reflexão que coloca o ano 2000 como síntese de tudo o que viríamos a enfrentar nas temporadas seguintes até 2009: a alternância quase doentia de vitórias épicas, obtidas na base da superação, e derrotas vexatórias, quase sempre em casa e para times inferiores.

O Palmeiras desta década, bem disse o meu amigo Galuppo, não perde para os grandes; o Palmeiras perde para os pequenos ou para ele mesmo.

Infelizmente, é inevitável valorar o que de ruim aconteceu em uma década perdida: tabus destroçados, estatísticas maculadas, fracassos inexplicáveis, um pouco da grandeza ficando pelo meio do caminho. Um festival de altos e baixos que parece combinar bem com a nossa tendência quase bipolar de buscar intensidade em tudo o que fazemos. Para o bem e para o mal.

Duas outras constatações:

1. O palmeirense é exigente demais. Porque lá atrás, ainda à sombra do título da Libertadores, tratou como lixo um time que hoje é reconhecido como muito bom.

2. O time que inaugurou a era do "Bom e barato" é considerado melhor do que o grupo dos milhões da Traffic. Não, eu não sou a favor da política do sapo-boi, tampouco vejo a Traffic como um câncer a ser extirpado. Só estou propondo o debate. Cada um que tire suas conclusões.

Por fim, devo admitir que sou tomado por um enorme saudosismo, típico de cada encerramento de ano (e de década, no caso). Porque me vejo, então bem mais jovem, de volta àquela noite chuvosa de 27 de janeiro de 2000. Sentado no último banco do Pompéia (o bom e velho 478P/10), ao lado de amigos que não tiveram a mesma persistência que eu, mal sabia eu que viriam 10 anos (e quase 500 jogos no estádio) assim tão intensos.

E então, como se tivesse o poder de voltar no tempo, gostaria de dizer apenas uma coisa para mim mesmo: "Te prepara, moleque. Esta noite é só o começo de muito sofrimento..."

17 comentários:

Washington disse...

Forza, a Mancha comete grandes erros quase todos os anos, aquele foi só mais um!

O time um é melhor q o dois, simplesmente pq tinha Arce, Roque Junirr, Junior e Alex, só ai ja bateu o Atual, fora q na epoca tinhamos um graaaaannde tecnico, e hj temos um cagão!!

Binóculo Verde disse...

Seu texto foi uma viagem no tempo, as lembranças foram aparecendo à cada palavra lida.

Quando vi as duas escalações, à primeira vista achei a atual mais consistente, apesar da primeira possuir mais destaques individuais.

Prefiro a segunda justamente por causa destes destaques, pois jogavam com gana e honravam a camisa que vestiam. Hoje as picuinhas e os egos tomam conta, infelizmente.

Torço para que esta briga política no clube termine com o final deste ano, para começarmos o próximo focados apenas no futebol, que é o que interessa de fato.

leonardo disse...

o time de 200 do segundo semestre era horroroso apesar de ter apenas 12 anos, tuta, basilio, um pior que o outro, porem simplismente jogou bola ganhou a copa dos campeoes, e ganhou do sp nas oitavas do brasileiro com raça que era o espirito da epoca com galeano! e perdeu uma final contra um super time do vasco depois de estar ganhando por 3 a 0, digo nao sei quem deve assumir o poder do palmeiras a turma do mustafa ou a turma do beluzzo, mais naquela epoca a opisiçao era mediocre e os diretores conseguiam trabalhar! cipullo ja provou que tem competencia 3 paulistas, 1 rio sao paulo, 2 brasileiros! e preciso ter calma e emplacar uma grande conquista e voltar a colocar medo nos adversarios como naquela epoca! como os bambis sao hoje! apesar de perderem o campeonato eles entram em todos como favoritos e chegam todos longes assim como eramos naquela epoca! e preciso ter calma!! e preciso ter calma! nao pode sair matando jogador, diretor, e etc! ou vc acha que um jogador consegue fazer corpo mole! para perder um capeonato ganho! que um tecnico queira perder um campeonato!! ou que uma diretoria nao queira ganhar um campeonato?!
e preciso apoiar seja la quem for!!! motivar esses caras!! dizer a nossa historia !! as nossas conquistas!! explicar que a camisa que eles estao vestindo nao sao do fluminense, botafogo, atletico mineiro! e sim do campeao do seculo! seja com situaçao ou oposiçao!! com trafico ou sem trafico! o flamengo, sao paulo, corintia nao tem trafic! e tao ai ! inter tambem nao! valeu

Lucio disse...

Post magnifico, arrebatador, inteligente, sofrido mais ao mesmo tempo esperançoso e é tudo que nós podemos ter. O final foi épico tb, me lembrou uma noite em que perdiamos da Inter de limeira, jogo transmitido pela bandeirantes e ali parece que começou o meu sofrimento, mas tb meu amor pela SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS E QUEM É PALEMIRENSE DE VERDADE SABE O QUE ESSA AGREMIAÇÃO REPRESENTA.

Nicola disse...

Acho que o que muda, cara, era a sequência que o Palmeiras tinha até o momento, vinha de vários títulos, ainda com o Felipão e alguns bons jogadores... Muito menos pressão do que hoje. Mesmo com 9 anos lembro bem desse ano de 2000, depois das finais contra o Boca e o Vasco fiquei chorando ao invés de dormir... Porra, comecei a torcer mesmo, que eu lembro, desde aquela final do Brasileiro de 97. Até 2000, nesses 4 anos, eu via o Palmeiras chegando nas finais todo ano, as vezes ganhando, as vezes perdendo... Em 2001 ainda fomos até a semi-final, perdemos pro Boca nos pênaltis dinovo... E em 2002 o rebaixamento, foi foda. E justamente em 2003 que eu começei a ir no estádio, com mais frequência de 2006 pra cá...

Pra você que viveu a década de 90 como eu vivi essa década atual, pode parecer bem mais sofrido agora, mas de certa forma é até normal, os bambis sumiram de 94 até 2004, os gambás até 90 só tinham Paulista, antes disso já tinham ficado 23 anos sem nada...

O que realmente me preocupa é a capacidade que o Palmeiras tem, hoje, de reverter essa situação. Não tem coisa pior que a política do clube, imagina se o Belluzzo sai e entra a turma do Mustafá dinovo? Ou fazem uma revolução naquela bosta ou vai ser assim pra sempre, é muita gente trabalhando contra. Ao passo que até nos gambás a coisa aparenta ser mais fácil...

Daniel disse...

porra, deu saudades desse time e dos times dos anos 90 mano.... era outro nivel

e o arce, esse era fodas!!

Rafael ϟ disse...

Esse time seria campeão da Libertadores, não fosse o assalto em Buenos Aires.

Mas não dá para dizer que Marcos, Júnior, Arce, Alex e César Sampaio sejam exemplos do conceito do "bom e barato". Esses aí foram resquícios da era Parmalat que acabara de terminar. Para contratar qualquer um deles na época, sairia era muito caro.

E não me lembro muito bem da época, pois ainda não frequentava estádios, mas pensei que a MV tinha mudado de idéia em relação ao Felipão depois da conquista da Libertadores. Então quer dizer que existiu tensão até o fim de sua jornada na SEP?

Rafael disse...

fala pilantra!

argel...esse era o cara!
pode ver que meu futebol foi inspirado no dele!!
kkkkkk


mudando de assunto...vc viu essa: http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Times/Sao_Paulo/0,,MUL1411822-9875,00-DE+FERIAS+RICHARLYSON+FAZ+APLIQUE+NO+CABELO+E+ADOTA+LOOK+RONALDINHO+GAUCHO.html

me fala agora se não é o time da piada pronta??

abs

Rafael da Silva

Forza Palestra disse...

Porra, eu gostava do Argel. E do Tuta também.

E eu comentei essa porra do Felisbino lá no Twitter. O cara pede, né?

Nicola disse...

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA, mas o Richarlyson não é gay, pô... Esse jeitinho dele é só pra fazer média com a torcida.

samorajr disse...

Lindo texto barney.... Ate terça no Fuad

Rafael disse...

pior foi ele dizendo que esse novo look vai ajudar o time a conquistar titulos...

sei bem qual o titulo que ela vao ganhar....

Rafael disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
JoãoP disse...

1) Belíssimo post, rapaz. O texto vai além de ter qualidade: tem valor histórico e artístico. Parabéns!

2) Argel, Tuta... e do Galeano ninguém fala, porra? Ele era o cara!

3) Nosso técnico da época tinha coragem de peitar na cara-dura a principal organizada do clube, que de quebra é das mais fortes e temidas do país. Nosso atual ficou se borrando de medo da torcidinha do rival, e ainda por cima condenou o Belluzzo pelas brincadeiras sobre a escória. Saudades do Felipão, com sua hombridade...

Abraço!

Lucas palmeirense da oposição disse...

oi, td bem! pode fazer um favor pra mim? eu mudei de blog. n tenho mais o jornal do palmeiras e agora tenho o Palmeiras Ao Vivo

entao, vc pode mudar o link da nossa parceria, por favor? o novo link eh www.palmeirasaovivo.com.br

de agora em diante, vou ter mais tempo pra comentar em tds os blogs do palmeiras pq n vou mais perder tempo postando noticias td hora.

obg!

Roberto Kamarad disse...

Cara, post incrível!!!
vc não é somente um saudosista. é um historiador palestrino. Parabéns, mano.
tudo de bom e nos vemos amanhã na festa da firma! rs

abssss

Anônimo disse...

Muito bom mesmo esse post, lembrou com perfeiçao o momento do Palmeiras e do futebol brasileiro de dez anos atras. Lembro q na epoca eu achava o time fraco em Janeiro, igual a Janeiro desse ano, a diferença era q akele de 2000 se destacou pela vontade e esse atual pela tecnica.

O estranho eh conferir nome por nome e constatar q no maximo entram no time de 2000 o Pierre e talvez CX e Love, ou seja o time de 2000 q na epoca eu achava apenas regular seria um timaço hoje.