29 março 2013

Libertadores/2009

Libertadores/2013, fase de grupos, turno 
Palmeiras 2-1 Sporting Cristal/PER
Libertad/PAR 2-0 Palmeiras
Tigre/ARG 1-0 Palmeiras

Libertadores/2009, fase de grupos, turno 
LDU Quito/EQU 3-2 Palmeiras
Palmeiras 1-3 Colo-Colo/CHI
Sport/PE 0-2 Palmeiras

Como se vê, o Palmeiras encerrou a primeira metade de sua participação na fase de grupos desta Libertadores em situação similar à de quatro anos antes: uma vitória e duas derrotas em três jogos, com a perspectiva de fazer duas partidas como mandante na sequência para então finalizar a campanha fora de casa – em Santiago lá atrás e em Lima agora. As diferenças residem no fato de que tínhamos em 2009 um time muito superior, talvez na mesma proporção da qualidade dos adversários (LDU, Sport e Colo-Colo eram infinitamente melhores que Sporting Cristal, Tigre e Libertad). Ou seja: a chance que tínhamos de conquistar a vaga em 2009 se aproxima da que temos de ficar com a classificação agora. Mesmo sem time, sem técnico e sem estádio.

Mais ainda: considerando que tivemos em 2009 um empate logo na quarta rodada (o equivalente ao duelo vindouro contra o Tigre/ARG), é de se esperar que duas vitórias em casa nos permitam viajar para Lima dependendo de um empate para ficar com a vaga.

Isso posto, e dando sequência à esporádica série de campanhas comentadas, é o caso agora de relembrar a trajetória do Palmeiras na inusitada e, em certos aspectos, heroica Copa Libertadores da América de 2009. Vejamos, pois:

Copa Libertadores/2009

O Palmeiras se classificou graças ao quarto lugar obtido no Campeonato Brasileiro/2008 (65-38-19-8-11-55-45), atrás de SPFC Grêmio e Cruzeiro. Teve, portanto, de disputar a pré-Libertadores.

Time-base: Marcos; Wendel, Maurício Ramos, Danilo e Armero; Marcão, Pierre, Cleiton Xavier e Diego Souza; Willians e Keirrison. Técnico: Wanderley Luxemburgo. Os reservas que mais entravam eram Souza, Obina e Ortigoza. Edmílson, Marquinhos e até Fabinho Capixaba (!) tiveram lá seus momentos de titularidade na fase de grupos.

Fase preliminar
Palmeiras 5-1 Real Potosí/BOL - 23.646
Real Potosí/BOL 0-2 Palmeiras - 3.055

Fácil, fácil... Na ida, no Palestra, Keirrison marcou duas vezes logo no início e facilitou a tarefa. Diego Souza, Cleiton Xavier e Edmílson completaram. Na volta, em partida disputada na altitude de Potosí (cidade que eu visitei dois anos depois para comprovar o sufoco que é), Keirrison e Cleiton Xavier fizeram os dois gols que garantiram a passagem para a fase de grupos. 

Fase de grupos
LDU Quito/EQU 3-2 Palmeiras
Palmeiras 1-3 Colo-Colo/CHI - 23.285
Sport/PE 0-2 Palmeiras - 19.386
Palmeiras 1-1 Sport/PE - 22.372
Palmeiras 2-0 LDU Quito/EQU - 17.305
Colo-Colo/CHI 0-1 Palmeiras - 31.038

Na estreia, em Quito, contra o então campeão sul-americano, a defesa viveu uma noite terrível, com falhas sucessivas. O Palmeiras foi buscar o empate duas vezes, mas isso não bastou para evitar a derrota. Nada absurda, diga-se, uma vez que se tratava de um adversário qualificado e jogando na altitude. O problema começou contra o Colo-Colo em SP. Com atuação abaixo da crítica (a defesa conseguiu ser ainda pior do que já fora em Quito), o Palmeiras levou dois gols, descontou, mas sofreu o terceiro no contra-ataque.

Mais de um mês depois, o time foi a Recife para uma batalha campal. Com os espíritos armados pelo dirigente Guilherme Beltrão, do Sport, fomos ao Nordeste como inimigos. Como estrangeiros até, uma vez que, para os locais, era uma guerra do Nordeste contra o Sudeste. Quem foi à Ilha do Retiro naquela noite de abril (com ingresso a R$ 100) sabe bem o sufoco que passamos. Em campo, um time aguerrido e bem montado segurou a pressão do bem montado Sport. Keirrison abriu o placar na metade do primeiro tempo, calando a Ilha do Retiro. A certeza da vitória, no entanto, só viria na final da segunda etapa, com um gol antológico de Diego Souza, que jogou como nunca naquela noite. O Palmeiras tinha renascido.

Na abertura do returno, novo tropeço em casa. Keirrison abriu o placar de pênalti contra o mesmo Sport, mas um gol no encerramento da etapa inicial deu números finais à partida: 1 a 1. A frustração foi um pouco compensada com a vitória na partida seguinte, 2 a 0 (Marcão e Diego Souza) sobre a LDU no Palestra. Faltando um jogo para o fim da fase, o Palmeiras ocupava a terceira posição, com sete pontos. Precisaria, portanto, devolver a vitória fora de casa contra o Colo-Colo. E aí, senhores, ouso dizer que todo palmeirense vivo se lembra do que fez Cleiton Xavier no Monumental de Santiago.

Oitavas
Palmeiras 1-0 Sport/PE - 23.991
Sport/PE 1(1)-0(3) Palmeiras - 28.487

De novo o Sport. E, claro, Guilherme Beltrão fez o possível e o impossível para acirrar os ânimos. Clima de guerra, a imprensa sendo mobilizada, acusações prévias de que o seu time seria prejudicado pela arbitragem, o escambau.

De nada adiantou. 
No Palestra, jogo duríssimo, resolvido apenas aos 30 minutos da etapa final. Depois de perder algumas boas chances, o alviverde chegou à vitória com um gol de Ortigoza, que entrara alguns minutos antes, após cruzamento de Cleiton Xavier. Na volta, em Recife, na indecisão entre segurar o empate sem gols e buscar um tento definitivo, o Palmeiras foi dominado pela equipe da casa: Marcos pegou quase tudo, menos um chute cruzado já nos minutos finais. Com a repetição do placar da ida, a decisão foi para os pênaltis. E aí, senhores, nós tínhamos São Marcos.

Quartas
Palmeiras 1-1 Nacional/URU - 24.700
Nacional/URU 0-0 Palmeiras - 46.269

Uma eliminação sofrida, ela toda podendo devendo ser creditada ao nosso treinador. Porque, naquele que foi provavelmente o pior ano de sua carreira, ele já vinha complicando a trajetória do alviverde desde o início, com sucessivas falhas de escalação e, principalmente, nas substituições. Apesar disso, fomos avançando. Depois de muitos erros em sequência, o estopim veio no jogo de ida contra o Nacional, o Palestra: o Palmeiras abriu o placar com um gol de Diego Souza (à base de muita vontade). Ao time da casa, bastava manter o ritmo e, se possível, encontrar um segundo gol no contra-ataque. Mas o técnico resolveu retrancar o time, inventou Jumar e chamou o Nacional para o seu campo. O empate, trágico, não tardou a vir. 1-1.

Algumas semanas depois, em Montevideo, em um Centenario tomado, o time até que se portou bem. Foi melhor que o anfitrião, criou boas chances, mas não conseguiu chegar ao gol que poderia garantir a vaga para a semifinal. Na memória do que lá estivemos, não vai sair a imagem do toque de cabeça de Obina, já nos minutos finais. O empate sem gols na noite fria de Montevideo decretou a eliminação de um time que, até então, havia superado obstáculos enormes. Mas, é fato, dava para ir muito mais longe. 
Pouco tempo depois, chegaria ao fim mais uma era Luxemburgo à frente do Palestra; e o Brasileiro daquele ano não terminou até hoje: jogamos no lixo um título que parecia imperdível e sofremos os efeitos até hoje.

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Não vou embedar os vídeos aqui no post, porque muita gente reclama que isso dificulta o acesso ao conteúdo do blog. Mas deixo a seguir toda a campanha linkada para os respectivos vídeos:

Palmeiras 5-1 Real Potosí/BOL
Real Potosí/BOL 0-2 Palmeiras

LDU Quito/EQU 3-2 Palmeiras
Palmeiras 1-3 Colo-Colo/CHI
Sport/PE 0-2 Palmeiras
Palmeiras 1-1 Sport/PE
Palmeiras 2-0 LDU Quito/EQU
Colo-Colo/CHI 0-1 Palmeiras

Palmeiras 1-0 Sport/PE
Sport/PE 1(1)-0(3) Palmeiras

Palmeiras 1-1 Nacional/URU
Nacional/URU 0-0 Palmeiras

25 março 2013

BR/2013, a tabela

Demorou, mas os vagabundos da CBF enfim divulgaram a tabela do BR/2013. Há boas opções de jogos no Nordeste e no Sul. A má notícia fica por conta do jogo em Belém (contra o Paysandu/PA): será numa terça-feira. Inviável. Agora é avaliar cuidado todas as opções e colocar o pé na estrada (ou no aeroporto).

Programem-se:

25.05 sáb. Palmeiras x Atlético/GO
28.05 ter. ASA/AL x Palmeiras
01.06 sáb. Palmeiras x América/MG
04.06 ter. Palmeiras x Avaí/SC
08.06 sáb. Sport/PE x Palmeiras
11.06 ter. América/RN x Palmeiras
06.07 sáb. Palmeiras x Oeste/SP
13.07 sáb. Palmeiras x ABC/RN
20.07 sáb. Figueirense/SC x Palmeiras
27.07 sáb. Guaratinguetá/SP x Palmeiras
30.07 ter. Palmeiras x Icasa/CE
03.08 sáb. Palmeiras x Bragantino/SP
06.08 ter. São Caetano/SP x Palmeiras
10.08 sáb. Palmeiras x Paraná/PR
13.08 ter. Joinville/SC x Palmeiras
17.08 sáb. Palmeiras x Paysandu/PA
24.08 sáb. BOA/MG x Palmeiras
31.08 sáb. Ceará/CE x Palmeiras
03.09 ter. Palmeiras x Chapecoense/SC

07.09 sáb. Atlético/GO x Palmeiras
10.09 ter. Palmeiras x ASA/AL
14.09 sáb. América/MG x Palmeiras
17.09 ter. Avaí/SC x Palmeiras
21.09 sáb. Palmeiras x Sport/PE
28.09 sáb. Palmeiras x América/RN
01.10 ter. Oeste/SP x Palmeiras
05.10 sáb. ABC/RN x Palmeiras
08.10 ter. Palmeiras x Figueirense/SC
12.10 sáb. Palmeiras x Guaratinguetá/SP
15.10 ter. Icasa/CE x Palmeiras
19.10 sáb. Bragantino/SP x Palmeiras
26.10 sáb. Palmeiras x São Caetano/SP
02.11 sáb. Paraná/PR x Palmeiras
09.11 sáb. Palmeiras x Joinville/SC
12.11 ter. Paysandu/PA x Palmeiras
16.11 sáb. Palmeiras x BOA/MG
23.11 sáb. Palmeiras x Ceará/CE
30.11 sáb. Chapecoense/SC x Palmeiras

*Se houver algum erro nos dados acima, peço que me informem.

24 março 2013

Insuficiência técnica

SCCP 2-2 Palmeiras
SPFC 0-0 Palmeiras
Palmeiras 0-0 SFC

Três clássicos, três empates. Mas o que chama atenção é que o Palmeiras foi superior aos seus rivais nos três duelos e deveria ter vencido todos. E por que não ganhou?, alguém haver de questionar. Bom, o diagnóstico é muito simples: insuficiência técnica. Ou, em outras palavras, o time é ruim. Muito ruim. O ataque em especial. E enquanto não tivermos reforços que venham para fazer a diferença, o máximo que podemos esperar é isso que tivemos hoje à tarde na cancha municipal. E, sabemos todos, é por demais irritante.

E tanto o 'presidente profissional' quanto os demais responsáveis pelo futebol devem ter isso em mente: precisamos de um time. Porque isso é a base não apenas para alcançarmos bons resultados em campo, mas também para alavancar a geração de receitas (mais público, marketing, TV, o escambau). Time. Porque, antes de tudo e custe o que custar, o Palmeiras deve ter um time em condições de enfrentar e superar seus rivais dentro em campo. É a nossa essência, e não podemos fugir disso.

Sem bons jogadores, sem time e sem um técnico à altura, não sairemos dessa fase em que os jogos têm sido sofríveis e, para muitos, dispensáveis. Não por culpa dos adversários, mas sim por culpa do próprio Palmeiras.

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_Para manter a coerência, insisto em apontar o dedo para a (grande) parte da torcida que tem sido acomodada como nunca antes. Porque novamente tivemos um público abaixo do mínimo aceitável. Os que fomos empurramos o time, entendemos as dificuldades, acreditamos, fizemos a parte que nos cabia. Quanto aos demais, não há o que justifique o abandono de que tem sido vítima o Palmeiras. Hoje era dia para muitos aí aparecerem no Pacaembu e darem lá o recado que querem dar; ficar em casa com a bunda no sofá para depois desabafar nas redes sociais não vai resolver porra nenhuma.

_Uma coisa precisa ficar clara para o senhor treinador da S.E. Palmeiras: o camisa 19 não pode - repito: não pode! - entrar em campo. A presença dele é uma ofensa ao torcedor na arquibancada.

_Eles insistem em fazer merda com o nosso dinheiro, e então eu me sinto obrigado a manter a mesma pergunta feita após os últimos dois jogos no Pacaembu: por que, bravos, valorosos e destemidos homens do 2º BP Choque, vocês têm fechado a escadaria de acesso que liga a rua Itápolis à praça Charles Miller? Por quê? Só para foder a vida do torcedor ou tem alguma explicação lógica? Seja como for, e como somos nós que pagamos o salário deles (não que eu veja sentido nisso), é justo que ao menos tenhamos uma justificativa.

22 março 2013

Romário, um gigante

Romário é, de longe, o maior jogador que eu vi em campo. No estádio mesmo, e não pela TV. Foi um gigante dentro de campo. E tem se mostrado agora um gigante também fora de campo:






21 março 2013

Sobre desinteresse e omissão

O time é ruim e tem jogado mal, mas, dado o baixo nível técnico do Paulista, até que se posiciona razoavelmente bem na tabela. Vence alguns jogos aqui e ali, tropeça em outros tantos, mas sofreu apenas uma derrota em 13 rodadas. Ontem mesmo, diante de um adversário perigoso, contou com boa dose de sorte para amealhar mais uma vitória. Bem longe do ideal ainda, mas serve para evidenciar a diferença entre ter no ataque um atleta promissor e com potencial e um outro, no caso o camisa 19, que desconhece elementos básicos de como finalizar a gol. Em outras palavras: se tivéssemos o moleque que veio do Sul no nosso ataque dois domingos atrás, teríamos vencido o SPFC no Morumbi. E é exatamente por termos um time fraco e sem padrão tático definido que desabamos quando o adversário é um pouco mais qualificado.

Não é isso, no entanto, o que mais deve despertar a nossa preocupação agora, senhores. O pior de tudo no momento é o fato de estarmos jogando seguidamente para estádios vazios, em noites (e tardes) melancólicas, em nada condizentes com o que se espera de um time de massa. Vejam que o palestrino João Malaia fez um levantamento das médias de público deste início de campeonato. O resultado é absolutamente preocupante.

Eu poderia aqui jogar mais uma série de dados para compor o cenário, mas eles só reforçariam a tese abordada com muita propriedade pelo Malaia. Deixando de lado as comparações com anos anteriores (a média atual é a pior de um início de temporada desde sempre), eis aqui um número chocante: a Grande São Paulo viu o Palmeiras entrar em campo três vezes (duas no Pacaembu e outra no Anacleto Campanella) em questão de seis dias (de 14/03, quinta, a 20/03, quarta). Em três jogos, foram 11.821 pagantes (5.301, 2.360 e 4.160), para a irrisória média de 3.940 pessoas por duelo.

Eu, como de hábito, estive nos três. E posso dizer que os que estiveram em São Caetano e nesses dois jogos na cancha municipal foram quase sempre os mesmos. E então, correndo o risco de me tornar repetitivo (prefiro isso à omissão que caracteriza muita gente por aí), eu pergunto: onde estavam os putos que ficam aí falando merda nas redes sociais e que resolvem fazer abaixo-assinado logo contra os poucos que se dispõem a continuar apoiando o Palmeiras em meio a tamanha omissão da torcida?

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Pelo segundo jogo seguido, me sinto no dever de questionar os bravos, valorosos e destemidos homens do 2º BP Choque da PM: por que, caros servidores públicos, vocês resolveram fechar a escadaria que liga a rua Itápolis (acesso às cadeiras laranjas) à praça Charles Miller? Por quê? Para segurança de quem, nobres defensores da lei? Com que intuito isso foi feito?

















Do jeito que está, e considerando que ontem o canto sudeste da Praça Charles Miller virou estacionamento de viaturas, a medida parece ter apenas e tão somente uma finalidade: tornar a vida do torcedor palmeirense ainda mais desagradável, submetendo o público a longas caminhadas para desviar da escadaria interditada.

Por que, bravos, valorosos e destemidos homens do 2º BP Choque?

19 março 2013

Rádio, TV e 3G

Três assuntos que eu preciso quero abordar aqui no blog:

1. Eu cresci ouvindo rádio. Mesmo durante os jogos e, claro, no estádio. Primeiro com o walkman (Sony, é evidente), depois com o celular (quase sempre Nokia) e, ultimamente, com um aparelho MP3 (Sony novamente). Claro que havia dificuldades quanto à sintonia fora de SP, mas tudo transcorria bem aqui na capital – mesmo em épocas, digamos, analógicas, nos desconectados anos 1990. Pois eis que vivemos hoje tempos de mobilidade total, com conexão que se pretende absoluta, mas não se tem o básico. Multiplicam-se os aplicativos que prometem fazer de tudo um pouco, mas eu não consigo mais escutar rádio no estádio. Primeiro porque mataram o AM, determinando que os novos aparelhos teriam apenas a frequência FM. Mas também porque os novos equipamentos parecem incapazes de sintonizar as poucas rádios FM que transmitem jogos. Vejam vocês que no Pacaembu, tendo a visão da torre da Bandeirantes lá no alto (é aquela que fica mudando de cor, sabem?), é impossível escutar a Bandeirantes (ou a BandNews, por consequência). Quanto muito, vem o sinal da Bradesco Esportes (do mesmo grupo) ou da CBN. Antes, quando existia a (muito boa) Estadão ESPN, havia outra opção decente; nem isso sobrou. E então, em um mundo tão moderno e conectado, eu não consigo fazer algo que provavelmente meu avô conseguia fazer quando o Palmeiras ainda era Palestra: ouvir o jogo no estádio pelo rádio.

2. Vocês sabem o que eu penso do tal Tiago Leifert, não? E de sua trupe de repórteres-palhaços? Por mais que eu tente manter distância de tudo isso, de quando em quando eles aparecem pela frente. Há dois sábados, esperando pelo almoço em casa, tive o desprazer de passar pelo programa do sujeito que "não leva o futebol a sério". Pois então me deparei com uma matéria sobre a, abre aspas, “equipe que cuida da carreira de Neymar fora dos campos”. Deixei no mudo, mas pude ver ali o pai do referido atleta, alguns muitos aspones, uma assessora de imprensa (sério, assessora de imprensa virou notícia, Globo?), um outro sujeito que ficou uns bons segundos chorando em frente à câmera, o prédio que vai sediar a empresa do cai-cai, o escambau. Duração: 12 minutos e 43 segundos. Repetindo: 12 minutos e 43 segundos para uma matéria em rede nacional – e em horário nobre – sobre o staff de um jogador de futebol.
O jornalismo esportivo morreu.

3. A questão das rádios nos leva a outro tema: vieram me falar em aplicativos que permitiriam, a partir de um smartphone, ouvir qualquer rádio do mundo. Legal e tal. Acontece que a Rede Globo bloqueia o sinal de 3G nos estádios para conseguir fazer a transmissão em HD. Sim, é por isso que você não consegue usar o seu celular em determinados jogos.

*Pergunta de ordem técnica: é possível comprar algum tipo de aparelho radiofônico portátil que sintonize AM? De que marca e onde?

18 março 2013

Vazio

Coube aos dirigentes do São Caetano a missão de fazer o Palmeiras jogar para o seu menor público em jogos na Grande SP em sete anos (ou dez, se considerarmos partidas que ainda valiam alguma coisa). Os 2.360 que tivemos coragem de seguir até São Caetano enfrentamos chuva, frio e, o pior, uma das tardes mais esquecíveis da história da Sociedade Esportiva Palmeiras. Tudo isso por extorsivos R$ 80.

Sim, senhores, os homens que dirigem o desprezível São Caetano resolveram que era o caso de cobrar R$ 80 pelo ingresso para um jogo que, a rigor, não valia absolutamente nada. Se tivéssemos uma imprensa esportiva decente, algum jornalista se prontificaria a entrevistar um desses dirigentes. Bastaria uma simples pergunta: por quê?

Notem que nunca tivemos um público assim tão pequeno em São Caetano (os jogos por lá normalmente são bastante disputados), mas dessa vez o preço do ingresso afastou até mesmo gente que vai a todos os jogos do Palmeiras, onde ou como for - são muitos os amigos que resolveram não encarar isso já durante a semana.

Ao final, e a despeito da vexatória tarde que tivemos no ABC, resta a quase certeza de que o São Caetano será enfim rebaixado. Depois de abandonar o Brasileiro para nunca mais voltar, chegou a cair também no Paulista.

E pensar que no começo do século teve muita gente querendo colocar um time sem torcida como "grande"...

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Sobre o time, o desgosto só não é tão grande quanto a desesperança. Preferia nem escrever nada sobre o que vimos no ABC, mas me sinto obrigado a fazer três breves comentários:

1. Desde quando zagueiro bate pênalti?

2. Por favor, proíbam o maldito camisa 19 de entrar em campo!

3. Precisamos de um técnico de verdade.

15 março 2013

Uma nova torcida

Havia ontem 5.301 pagantes no Pacaembu. Quase nada. Qual não foi a minha surpresa, no entanto, ao constatar que, desses poucos, lá estavam, smartphones em mãos, todos os 5 mil que assinaram a tal petição contra a maior organizada? Não apenas se fizeram presentes, como cantaram o jogo todo. Empurraram o time, vibraram, fizeram a diferença. Coisa linda de se ver.

Mas não só isso. O abaixo-assinado foi apenas o primeiro passo. Porque ontem os iPhones, Galaxies e BlackBerries antes utilizados para manifestar eletronicamente o desejo de que a Mancha não mais existisse eram a arma dos indignados para eventualmente capturar imagens de outros torcedores e já enviar e-mails para o tal serviço de alcaguetagem criado pelo senhor Paulo Nobre.

Engajamento é a palavra da vez, sabem como é? As hashtags invadiram o Pacaembu na noite de ontem. E elas nem se preocuparam com a fina garoa que insistia em cair. "Deixa chover/ Deixa molhar/ É no molhado que eu vou denunciar..."

Viva esses tempos tão modernos.

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Já retrucando os possíveis comentários contrários: o exagero se faz necessário. Porque Nobre errou na medida - e não foi com um texto, mas com uma medida prática. Em busca de um distanciamento capaz de tornar sua imagem mais palatável para a opinião pública (por que, Nobre?), rifou a sua própria torcida e depois quebrou uma regra básica de convivência das arquibancadas.

Providências se fazem necessárias, e isso não se questiona. Mas o novo presidente está errando na medida, no tom e na maneira de comunicar isso. Não é por aí. Definitivamente não é por aí.

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Aos bravos, valorosos e destemidos heróis do 2 BP Choque: de quem foi a ideia de fechar a escadaria que liga as cadeiras laranjas à praça Charles Miller? O que passa na cabeça de vocês para fazer algo assim?

Ouvi dizer, por um amigo, que um dos coxinhas alegou "razões de segurança". Segurança de quem?

A verdade mesmo é que fazem de tudo para prejudicar a vida do torcedor de futebol neste país - e nesta cidade, em específico. Fechar a escadaria do Pacaembu é apenas mais um indício.

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Vou escrever depois sobre isso, mas eu gostaria de entender o que se passa na cabeça dos dirigentes do São Caetano para cobrar R$ 80 pelo ingresso do jogo de domingo?

10 março 2013

O peso do tabu

















11 anos. São 20 jogos em sequência (8 empates e 12 derrotas). Eu não sei quanto a vocês, mas isso pra mim tem um peso enorme - e ele cresce a cada tarde infeliz como esta. Talvez a maioria nem perceba o efeito de tanto tempo sem que o Palmeiras consiga subjugar o inimigo em seu campo. Mas para alguém que, como eu, se fez presente em todos esses 20 jogos (e em mais dezenas antes e em todos os demais em outras canchas), a série negativa adquire um impacto tão considerável quanto o seu significado histórico.

Daí que fica no ar a pergunta inevitavelmente feita por todos os que damos as caras no Morumbi jogo após jogo (somos sempre os mesmos, acreditem): por quê?

Bom, podemos aqui e ali responsabilizar a arbitragem. Como também podemos lamentar a falta de sorte habitual. Mas, via de regra e guardados alguns momentos de exceção, a vitória nos escapa nesses últimos 11 anos simplesmente porque temos levado aos clássicos no Morumbi uma sucessão de times fracos - e isso é reflexo dos muitos anos em que o clube parou no tempo. Simples assim.

A vitória fica no "quase" quando a bola cai nos pés de um atacante, o 19, que desconhece as técnicas mais elementares para que ela vá ao encontro das redes. Deixam de vir os três pontos quando um cruzamento é mal feito ou quando um ou outro jogador chuta em vez de passar ou passa no lugar de chutar. E, de tempos em tempos, o fracasso virá da teimosia ou do esquema inventado por algum treinador. É assim, senhores, tão simples quanto o futebol.

E hoje, com um homem a mais, a inaptidão de boa parte do nosso elenco se fez notar além da conta. Nunca a vitória esteve tão perto - por circunstâncias da partida, que fique claro -, mas ela escapou de novo, aumentando o peso tão difícil de carregar e dificultando ainda mais a tarefa que teremos na próxima visita ao Morumbi, apenas e tão somente no segundo semestre de 2014.

Se até lá tivermos um time decente, podemos chegar à vitória. Do contrário, vamos seguir, poucos e bons, lutando na arquibancada por um time incapaz de quebrar a escrita em campo.

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Este SPFC 0-0 Palmeiras foi dos clássicos menos interessantes de que já tomamos parte. E isso vale mesmo para esta fase em que dirigentes inescrupulosos e vagabundos profissionais puseram fim aos clássicos com torcida dividida. Não houve sequer os habituais xingamentos entre as duas torcidas, quase como se estivéssemos com preguiça de exercer o sagrado direito. Exceção feita aos (criativos) cantos da Mancha Zona Sul no intervalo, nada mais aconteceu.

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Depois do monte de besteira que eu li e ouvi nos últimos dias, preciso me pronunciar sobre ao menos um aspecto. Notem que eu não concordo com a atitude tomada por alguns torcedores em Buenos Aires, mas há quem esteja confundindo as coisas. É então que, sendo bem pragmático, vou aqui deixar uma pergunta para os tais cinco mil que resolveram endossar o tal abaixo-assinado (sério mesmo?) pedindo a extinção da Mancha (e vou fazer isso desconsiderando a inadequação, a ingenuidade e a bizarrice contidas em tal proposição). A pergunta é bastante simples:

Onde vocês estavam hoje à tarde?

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Outro dia um sujeito veio querer saber o que me levava a ir a todos esses jogos no Morumbi mesmo sabendo do retrospecto e do time ruim que temos. Pois bem, é exatamente isso que diferencia os torcedores uns dos outros - e há quem queira tratar como iguais os que são desiguais. Tardes (ou noites) como esta (e qualquer uma das 19 anteriores) deixam claro quem é quem. O resultado pouco importa; porque se o Palmeiras vai a campo, sempre estaremos ao lado dele. Contra tudo e contra todos.

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Vencemos o SPFC no Morumbi em 2000, em 2001 e em 2002, tudo na sequência. Foram vitórias emblemáticas. Como alguém comentou hoje antes do jogo, o nosso último triunfo lá aconteceu quando o mundo ainda era normal. É verdade. Tão verdade quanto o fato de termos perdido a nossa força na casa do nosso inimigo à medida que deixamos de jogar lá (mesmo contra o SCCP). Não, isso não é uma crítica ou uma reivindicação; é apenas uma constatação.

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A foto que abre o post só poderia ser do gigante Gabriel Uchida.

07 março 2013

"Modern football is rubbish"

Dando sequência à série (que já agrega os outros livros sobre futebol, com uma aba aí na barra direita do blog), eis que agora abre-se espaço para um livro britânico que reflete o desânimo dos súditos da rainha (sempre nunca quis apelar para esse jargão idiota) com o esporte bretão (taí outra apelação grotesca para completar o serviço):

























O título, “Modern football is rubbish”, pode ser livremente traduzido como “futebol moderno é lixo”. Diz muito sobre o que se vai encontrar nas pouco mais de 200 páginas seguintes. O subtítulo é ainda mais elucidativo: “An A-Z of all that is wrong with ‘the beautiful game’”. A foto da capa traz um velho estádio britânico a sediar um duelo que remonta a tempos idos: campo enlameado (parece nem haver gramado, só lama mesmo), uniformes sem patrocínio, bola de capotão...

Bastante simples (formato de bolso, papel de jornal, edição sem índice, prefácio ou qualquer contextualização), o livro foi escrito por Nick Davidson e Shaun Hunt, que sequer são formalmente apresentados - e eu confesso que não fui atrás de informações sobre a dupla; sintam-se à vontade para fazer isso e compartilhar no campo de comentários.

A estrutura é igualmente simples: rápidos capítulos, uns 70 provavelmente, sem ligação aparente entre um e outro, com títulos de A a Z. O que existe de comum entre eles? Apenas a constatação de que o futebol moderno é um lixo.

É um livro irregular, de altos e baixos quase que na mesma proporção. Há passagens memoráveis, e outras pouco interessantes - em especial aquelas que se dedicam a apontar aspectos locais do futebol inglês, nem sempre assim tão acessíveis ao público de outros países. Confesso que algumas referências pouco compreensíveis me levaram a recorrer a outras fontes.

As temáticas abordadas são as mais diversas: malefícios da elitização, a idolatria exagerada a jogadores que nada fizeram para merecer tanto, o marketing predatório, o papel da imprensa, o desempenho dos árbitros, o excesso de dinheiro no futebol, a intromissão das emissoras de TV, a falta de escrúpulos dos dirigentes, a perda de identidade entre o "povo" e o "esporte do povo"...

Pois bem, como a ideia aqui não é fazer propriamente uma resenha, vou trazer alguns trechos que me parecem os mais expressivos:

Aqui vai um capítulo inteiro, título incluso:

"Big four, the
They´re big, there are four of them and they won´t let anyone else to play"

Direto e reto, não?

Mais uma boa passagem, também com o título:

"Club websites
Look, we just want ticket information
(...)
And, when we finally get to the ticket information, what do we find? Yes, the tickets we were after have sold out. Gobbled up by Platinum Club members. Grrrr."

Outro, sobre autobiografias de jogadores:

"There used to be a time when players waited until the end of their sodding careers before sitting down with Harry Harris for a pint and a chat. These days the average age for a Premiership player's autobiography is twenty-four.
T-w-e-n-t-y e-f-f-i-i-n-g f-o-u-r! That´s not a life story. It´s a glorified school report.
All footballers' book follow the same tired format. Here's the template:
1. Played football in the street (a lot).
2. Went to school. Didn´t like school much. Captained school team. Scored 376 goals in a single season.
3. Was expeled from school.
4. Signed YTS forms for local club.
5. Broke into the first team.
6. Broke into England squad.
7. Got a celebrity girlfriend.
8. Got caught 'playing away'.
9. Missed a penalty and/or sent off in crucial World Cup game.
10. Got a six-figure book deal."

Gosto deste trecho aqui também:

"Look, there is only one World Cup. The very fact that other sports have to add a rugby or cricket prefix tell us everything we need to know. Football is the world's game. Rugby and cricket are not."

E que tal este?

"Flashy boots
£ 199,99 for a pair of football boots? You're having a laugh.
Don't we ever learn? Who was the best player at school? The rich kid who turned up to football training in the latest Man United kit and a brand new pair of Puma Kings? Or the scrawny kid, with the band legs and boots bought off the hanger of Woolworths?"

Polêmica há quando os autores afirmam que "it is all Nick Hornby's fault". E, acreditem, a argumentação é consistente. Eles traçam uma relação entre a data de publicação de "Fever Pitch" e tudo o que viria a acontecer desde então, em especial a terrível mudança no perfil do público que vai aos estádios. Segundo os autores, a bíblia do torcedor de futebol tem influência nisso. A conclusão é difícil de ser rebatida: "Let us be clear, we think Fever Pitch is a work of a genious, one of the best books ever written about the game we love. It certainly changed football literature for the better. Unfortunately, and unintentionally, it change football itself. For the worse."

Tá, estou com preguiça e sem tempo de traduzir os demais trechos, mas esse aqui merece, para plena compreensão: Sejamos claros: nós achamos que Febre de Bola é um trabalho genial, um dos melhores livros já escritos sobre o jogo que amamos. Certamente mudou a literatura do futebol para melhor. Infelizmente, e sem intenção, mudou o próprio futebol. Para pior.

E, para fechar a parada, deixo-os com uma breve citação que resume o livro e, pior, o que vivemos hoje. Ela vem do capítulo "Books about football finance":

"You don't have to be John Manynard Keynes to work out what's wrong with modern football. It's simple - there's too much money in the game."

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Onde comprar:
Ouso dizer que o livro nunca será lançado aqui no Brasil (não há público para isso no dito "país do futebol"), e então a única opção é a internet. Eu comprei na Amazon e o preço é bem razoável (na faixa dos U$ 10, mais as taxas). Demora uns 15 ou 20 dias para chegar no Brasil. Se preferir, tem a versão para o Kindle.

06 março 2013

Aos guerreiros alviverdes

Vocês já devem estar acostumados aos meus textos pré-decisões. Pois não vai sair agora nada no formato habitual. Basicamente porque, por motivos alheios à minha vontade, não poderei estar no Monumental Victoria na noite desta quarta-feira. Não vai ser nada fácil encarar a distância: o jogo se apresenta não apenas como uma decisão dentro de campo, mas especialmente como uma duríssima batalha do lado de fora. Briga dos barra bravas locais; estádio acanhado (e desconhecido); clima de tensão; promessa de uma recepção, digamos, inamistosa; um time argentino jogando para não ser eliminado. Leio as notícias todas, vejo as ameaças, imagino os riscos, e isso só aumenta a minha vontade de seguir para a cancha.

De certo modo, há similaridade entre este jogo e aquele que tivemos contra o Sport em 2009 pela primeira fase da Libertadores (ler aqui, aqui e aqui alguns textos sobre aquela noite memorável). Ali a situação era até pior, com duas derrotas nas costas e um clima de guerra que certamente era pior do que o que devemos enfrentar hoje no subúrbio de Buenos Aires. Mas, bem ou mal, era o nosso país. Agora, contra o Tigre, é fora de casa mesmo.

O que me conforta é saber que estaremos bem representados lá na Argentina. Confio em cada um dos guerreiros que embarcam hoje. Costumo encerrar meus textos dizendo aos que ficam que lutarei até o fim para trazer a vitória. Dessa vez, no entanto, sou eu que fico, e então peço aos guerreiros alviverdes que lutem por todos nós. E, se possível, tragam a vitória!

05 março 2013

Geração Winning Eleven (8)

Para os que estão chegando agora, o conceito de Geração Winning Eleven pode ser compreendido nos capítulos 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7 da série. Eu bem sei que, para além de não ter uma periodicidade definida, esta sequência de posts não tem necessariamente um vínculo lógico entre eles. Não importa, e tampouco este aqui terá. Aliás, nem vou avançar mais no conceito, uma vez que ele está bem resolvido já desde o primeiro capítulo. O que faço agora é apenas reproduzir uma imagem que diz muito sobre a situação vivida hoje na Europa. Direto ao ponto:




E tem muita gente querendo transformar o Campeonato Brasileiro, já destroçado pelos malditos pontos corridos, em uma aberração como essas aí...

04 março 2013

Respiro





tirinha do Angeli na FSP de ontem (03.03.2013)

Em meio ao festival de insanidades que tem sido publicadas e veiculadas por aí, eis que o suplemento dominical Aliás, do Estadão, trouxe ontem duas entrevistas interessantes sobre o caso de Oruro. Não que eu concorde com tudo o que está lá (tenho muitas discordâncias até), mas os entrevistados fazem uma análise bastante razoável do tema – sem os alaridos típicos da nossa imprensa (seja ela “especializada” ou não). A primeira entrevista é com o antropólogo Roberto DaMatta; a outra é com o historiador Hilário Franco Júnior, autor de “A Dança dos Deuses”, um livro que muito em breve será recomendado na série sobre literatura do futebol. Tenho até algumas ressalvas mais consideráveis em relação às opiniões do Hilário Franco Júnior, mas o livro dele é de tal importância que eu me sinto no dever de recomendar a sua análise.

Deixo-os com os dois links:

O show precisa parar...

... e nós precisamos falar sobre o Kevin

De quebra, o Estadão trouxe ontem duas páginas inteiras de cobertura sobre a situação dos 12 que estão presos em Oruro. Do ponto de vista jornalístico, é um relato dos mais preciosos.

28 fevereiro 2013

Consciência de classe

Eu havia prometido para mim mesmo que este blog não trataria do ocorrido em Oruro - ou de suas consequências. Simplesmente porque não estive lá. Ainda que tenha minhas percepções decorrentes dos muitos anos de arquibancada, não queria correr o mínimo risco de tirar conclusões imprecisas. Acontece, senhores, que em meio ao festival de bobeiras, barbaridades e irresponsabilidades que vêm sendo proferido pela despreparada imprensa esportiva e pelos propagadores do senso comum, há quem se supere no nível de atrocidade. Há quem consiga sair do varejo e partir para o atacado da pior maneira possível. Decorre disso a necessidade de um posicionamento, por mínimo que seja.

Tenho ouvido opiniões as mais infundadas. São diversos os públicos que resolvem falar sobre o assunto sem o devido conhecimento de causa. É o caso, antes de partir para o que realmente importa, de enumerar e descrever esses extratos da "indignada" (e alienada, no sentido mais estrito do termo) sociedade civil:

_IMPRENSA ESPORTIVA
Há exceções. Poucas. Tão raras elas são que eu me permito fazer uma generalização e colocar na conta de toda a categoria. Porque, de modo geral, ela (quase) toda se comporta de uma maneira uníssona, sem a devida reflexão e com elevada dose de rancor. Faz décadas que é assim. Faz décadas que a imprensa esportiva apela para o mesmo discurso: "marginais", "vândalos organizados", "bandidos travestidos de torcedores" etc. Mais do mesmo. E não é nada, porque nada diz. O que se revela é a incapacidade de avançar além do simples desejo de extravasar sentimentos os mais primitivos, bradando as mesmas e vazias palavras de ordem, quase como se fossem eles, jornalistas esportivos, os paladinos da justiça. Há, em meio a essa categoria maior, alguns grupos segmentados. É o caso dos imbecis contumazes, subcategoria capitaneada por Flavio Prado, o símbolo maior do jornalista-de-estúdio, aquele para quem "torcedor de futebol é vagabundo". Seu modus operandi diz muito sobre a relevância de seu falatório. De outra parte, há aqueles jornalistas que simplesmente se permitem alienar, reproduzindo o senso comum sem qualquer pensamento. Não acrescentam nada; pelo contrário.

_A IMPRENSA "GERAL"
Aqui me refiro àqueles profissionais que não "militam" na imprensa esportiva (não a todos, é evidente). Jornalistas que são, pensam ter direito a opinar sobre qualquer tema, como se conhecimento tivessem para tanto. Longe disso; a maioria não sabe do que está falando, muito por manter com os estádios de futebol uma relação de distanciamento e, portanto, desconhecimento. Mas aí, com o assunto em evidência na esfera pública, o tipo resolve que é o caso também de se pronunciar sobre. Liberdade de expressão, sabem como é? Daí surgem as maiores e mais desaforadas besteiras. Há desde sensacionalistas apresentadores de TV (que proferem sempre as mesmas palavras de ordem, em um brado indignado por "justiça") até aqueles que devem entender muito de política ou economia, mas definitivamente não sabem nada de futebol - e ainda menos de arquibancada. Os primeiros, caricatos, nem me ofendem, tamanha é a inconsistência do que dizem; os segundos, revestidos de artificial sobriedade, são possivelmente mais nocivos: porque aí a coisa deixa de pertencer aos cadernos esportivos e ganha as páginas de opinião (???), influenciando ainda mais a sociedade civil organizada (???) em torno de um preguiçoso senso comum.

_AS (E OS) "ANAS MARIAS"
Dia desses, a TV da academia ligada na emissora de sempre, uma senhora conversa com seu papagaio (?). Sou obrigado a ver aquilo. Falando para um público que nada tem a ver com o assunto, a criatura resolve dar seus pitacos também. Extravasa o discurso inconformado dos desocupados que se dispõem a acompanhar aquele show de horrores. Não ouço nada, felizmente, mas o "closed caption" traz aqui e ali um tanto das opiniões (?) da tal senhora. O discurso vazio de sempre, partindo de uma pessoa que não faz a menor ideia do que é uma arquibancada.

_OS "JUSTICEIROS" DAS REDES SOCIAIS
"Tem que proibir esses vagabundos". "Tem que aumentar o preço dos ingressos". "Vamos construir estádios de segurança máxima". As redes sociais liberam o que há de pior no ser humano. Ponto. E o que mais aparece nessa hora são os sedentos por "justiça". Quanta besteira está sendo escrita por aí. Quanto despreparo, quanta aberração, quanta insolência. Via de regra, é um elitista em potencial. E, acredite em mim, diz o elemento que não vai a estádios por causa da violência, mas basta chegar uma final para ele te ligar atrás de ingressos.

_OS "SOFÁS"
"Eu não vou a estádios por causa da violência". Já ouvi isso muitas e muitas vezes. A verdade é a seguinte: "Eu não vou a estádios porque sou um acomodado que prefere ficar com a bunda no sofá, mas ninguém vai se importar se eu colocar a culpa na violência". Porque é isso, sem tirar nem por. O sujeito se esconde atrás do senso comum e de um discurso que não se sustenta para camuflar a própria inoperância. E agora, num momento desses, resolve dar as caras: "Tá vendo por que eu não vou a estádios?".

_OS ADEPTOS DO "CLUBISMO"
Não foram poucos os amigos da arquibancada que manifestaram algum todo tipo de contentamento com a punição aplicada ao SCCP. Em sua maioria, isso se deve basicamente a um fator: clubismo. Se me permitem, vou dizer o que penso: foi (e é) um erro. Porque, acreditem os senhores, isso poderia ter acontecido contra o Palmeiras, e então a opinião certamente seria outra. Em sendo assim, cabe refletir um pouco mais. O que está em jogo não é uma decisão que prejudica o nosso rival, mas sim a abertura de um precedente perigoso, que, mais do que tudo, atiça a mente dos reacionários e justifica até mesmo manifestações grotescas como esta. Por favor, não se deixem contaminar pelo clubismo quando o momento pede consciência de classe.


E aí, senhores, públicos devidamente apresentados e consolidado o cenário em que qualquer cretino entende que pode falar de futebol, é necessário apontar as consequências disso tudo. Porque hoje, com o futebol tão em evidência no noticiário, qualquer coisa que aconteça, pequena ou grande, enseja discursos os mais estapafúrdios. É hora de sair da "parte" e chegar ao "todo".

Falta ao torcedor de futebol neste país a consciência de classe que sobra em outros lugares (tomo como exemplo a Italia). Falta a noção de que a decisão ora tomada afeta todas as torcidas e contraria os interesses de quem é da arquibancada. Nesse sentido, o clubismo é altamente nocivo, à medida que apenas amplia o contingente dos que atacam a arquibancada.

E aí, para que a coisa não fique apenas na retórica, me sinto obrigado a abrir espaço para um texto específico, que ilustra bem a batalha que está em curso. O responsável é um certo blogueiro que defende os clubes-de-empresa-e-sem-torcida. Que prefere "consumidores" a "torcedores". Que defende a elitização no futebol. Que, entre outras coisas, escreveu este troço.

Vou evitar comentários; o texto já é constrangedor por si só. Entre tantas atrocidades, reproduzo dois pequenos trechos para, digamos, apreciação dos senhores:

"Mas os próximos anos serão cruciais para a mudança definitiva do perfil de quem vai a um jogo de futebol. Os novos estádios vão atrair um novo tipo de público."

"Os novos estádios sem dúvida vão diminuir a importância do torcedor na experiência do jogo. A torcida é parte do evento, mas não pode ser o centro dele."

Fico por aqui. Acima de tudo, com a convicção fortalecida de que a consciência de classe se faz mais necessária do que nunca. Porque há quem queira aproveitar as circunstâncias para impor uma agenda elitista e voltada não para o futebol como manifestação cultural e popular, mas sim para o futebol como um mero negócio. É contra isso que devemos seguir lutando. Contra a alienação, contra o senso comum, contra a hipocrisia.

O futebol só existe por causa da torcida. E, queiram ou não, a arquibancada haverá de resistir. Sempre.

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Nem sei se ele concorda com a minha argumentação, mas faço questão de recomendar nesse mesmo post um brilhante texto do Leandro Beguoci, na edição de março da revista VIP, já nas bancas: "O futebol dos gerentes". A análise dele é precisa:

"Isso acontece porque o futebol disseminou por toda a sociedade o estilo de vida dos trabalhadores das fábricas, que se espalhavam por amplas áreas das maiores cidades do país. Ir a um estádio de futebol, alguns anos atrás, era uma experiência semelhante a começar o dia em uma indústria. A comida na porta, as longas filas para entrar, a simplicidade do concreto armado, o desconforto das arquibancadas, o companheirismo de quem compartilha o mesmo destino difícil e suado. 

À medida que o país mudou, o futebol também se transformou. Agora, quem vai aos estádios são as pessoas que trabalham em escritórios com ar condicionado, janelas amplas, em áreas próximas a shopping centers e usam palavras em inglês, mesmo com um belo similar em português – espero, aliás, que partida nunca seja chamada de “match” por aqui. Essas pessoas, filhas dos trabalhadores que frequentavam os estádios, agora querem que as arenas sejam mais parecidas com o mundo em que elas vivem. Com a Copa do Mundo, isso foi possível. É o fim do churrasquinho. É o começo do espaço gourmet."

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É evidente que uma derrota como esta sofrida no Paraguay é ruim, mas ela pode ser interpretada como normal dentro da programação do nosso grupo. É o caso de buscarmos na Argentina, na próxima semana, a recuperação. Mas é preciso que o time, além de vontade, jogue futebol também. Pelo menos um pouco.

26 fevereiro 2013

"Futebol ao Sol e à sombra"

O jornalista e escritor uruguayo Eduardo Galeano tem mais de 40 livros publicados, com temáticas diversas. Recomendo toda a sua obra, mas, levando em conta o que interessa para este blog, obrigatório mesmo é "Futebol ao Sol e à sombra". É um livro de crônicas, repleto de uma melancolia que tão bem se aplica a um fim de tarde pós-futebol em Montevideo.

Pois Galeano dedica boa parte do livro a uma interpretação saudosista de um futebol que deixa de existir a cada dia que passa. Publicada em 1995 (e hoje disponível com atualizações que compreendem pelo menos mais uma década depois disso), "Futebol ao Sol e à sombra" é composto de pequenas crônicas e contos, um atrás do outro.


























Em ordem cronológica, o livro cobre quase toda a história do futebol, do surgimento à primeira metade dos anos 1990 (a edição atualizada traz ainda textos complementares sobre as Copas de 1998, 20002 e 2006). O foco principal é o futebol que se pratica às margens do Rio da Prata (ou seja, do seu Uruguay e da Argentina vizinha), mas há muito espaço também para o futebol do Brasil (do Rio em especial).

Há momentos que beiram a poesia, mais notadamente nos capítulos iniciais, que se dedicam a fazer um apanhado pouco convencional dos primórdios do futebol. Residem aí os melhores trechos da obra. Os diferentes aspectos do jogo são apresentados de maneira esquemática e bastante direta: "O futebol", "O jogador", "O goleiro", "O técnico", "O árbitro", "A bola" etc.

Como este trecho aqui, em "O torcedor":

"Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da arquibancada, celebra sua vitória, que goleada fizemos, que surra a gente deu neles, ou chora sua derrota, nos roubaram outra vez, juiz ladrão. E então o sol vai embora, e o torcedor se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto vão se apagando as luzes e as vozes. O estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas depois da morte do carnaval."

Ainda melhor é o relato contido em "O estádio", ele todo já reproduzido por este blog em 2010, por ocasião de mais um post sobre o assassinato do Maracanã:

"Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém. Em Wembley ainda soa a gritaria do Mundial de 66, que a Inglaterra ganhou, mas aguçando o ouvido você pode escutar gemidos que vêm de 53, quando os húngaros golearam a seleção inglesa. O Estádio Centenário, de Montevideo, suspira de nostalgia pelas glórias do futebol uruguaio. O Maracanã continua chorando a derrota brasileira no Mundial de 50. Na Bombonera de Buenos Aires, trepidam tambores de há meio século. Das profundezas do estádio Azteca, ressoam os ecos dos cânticos cerimoniais do antigo jogo mexicano de pelota. Fala em catalão o cimento do Camp Nou, em Barcelona, e em euskera conversam as arquibancadas do San Mamés, em Bilbao. Em Milão, o fantasma de Giuseppe Meazza mete gols que fazem vibrar o estádio que leva seu nome. A final do Mundial de 74, ganho pela Alemanha, continua sendo jogada, dia após dia e noite após noite, no estádio Olimpico de Munique. O estádio do rei Fahd, na Arábia Saudita, tem palco de mármore e ouro e tribunas atapetadas, mas não tem memória nem grande coisa que dizer."

Vale ainda destacar um trecho de "História de Fla-Flu", de um sentimento que certamente se aplica a quaisquer outros clássicos disputados no Brasil ou no mundo. A escolha deste duelo específico talvez se dê pela sonoridade do nome ou pela ambientação no Rio de Janeiro; faz sentido que seja assim:

"Desde então, pai e filho, filho rebelde, pai abandonado, dedicam-se a se odiar. Cada clássico Fla-Flu é uma nova batalha desta guerra de nunca acabar. Os dois amam a mesma cidade, o Rio de Janeiro, preguiçosa, pecadora, que languidamente se deixa querer e se diverte oferecendo-se aos dois sem se dar a nenhum. Pai e filho jogam para a amante que joga com eles. Por ela se batem, e ela vai aos duelos vestida de festa."

Fechamos assim:

"Uma jornalista perguntou à teóloga alemã Dorothee Sölle:
-Como a senhora explicaria a um menino o que é a felicidade?
-Não explicaria - respondeu - Daria uma bola para que ele jogasse.
O futebol profissional faz todo o possível para castrar essa energia de felicidade, mas ela sobrevive apesar de todos os pesares. É talvez por isso que o futebol não pode deixar de ser assombroso. Como diz meu amigo Angel Ruocco, isso é o melhor que tem: sua obstinada capacidade de surpresa. Por mais que os tecnocratas o programem até o mínimo detalhe, por muito que os poderosos o manipulem, o futebol continua querendo ser a arte do imprevisto. Onde menos se espera salta o impossível, o anão dá uma lição ao gigante, e o negro mirrado e cambaio faz de bobo o atleta esculpido na Grécia."

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Onde comprar: em qualquer grande livraria. Eu comprei na Cultura do Cj. Nacional (Av. Paulista), mas já encontrei também em outras redes (Fnac, Saraiva etc.). Fica mais fácil se você buscar naquelas estantes giratórias com livros de bolso (a edição é da L&PM Pocket). Não deve sair por mais do que R$ 20.