25 janeiro 2011

Sobre o aniversário de SP

Como de costume, muitas foram as homenagens de jornais e revistas ao aniversário de 457 anos da cidade de São Paulo. Ok, tudo muito justo e tal, mas eu acredito que este blog tem a função de, a cada novo 25 de janeiro, dar publicidade ao maior atentado que um veículo de comunicação já cometeu contra esta metrópole e contra seus habitantes. É assim que, ao término desta breve introdução, deixá-los-ei com um post que, publicado em 2009, merece ser lembrado a cada ano para que os responsáveis por ele se envergonhem e, quem sabe em um surto de dignidade, ponham fim a suas vidas desprezíveis.


Que cidade é essa?
(25.01.2009)

Eu deveria usar este espaço para escrever sobre a viagem para Ribeirão Preto, o início de mais uma temporada, a vitória alviverde e a bela estréia de Keirrison, que fez dois gols e mandou a bola na trave duas vezes. Deveria. Mas a imprensa não deixa, e desta vez a coisa vai além dos cronistas esportivos.

Mas começa por eles, claro, pois o jornaleco esportivo não consegue disfarçar as tentativas de manipulação. Vejamos aqui:

“Keirrison marcou na estreia pelo Palmeiras, mas Washington foi melhor e deixou o seu na primeira vez que tocou na bola com a camisa do São Paulo. Logo aos dois minutos, o atacante subiu mais alto que a zaga e tocou para a rede, após cobrança de escanteio.”

É isso: Keirrison fez dois gols e parou duas vezes na trave, “mas Washington foi melhor”. E foi assim ainda que este primeiro gol tenha sido do zagueiro adversário e não dele próprio. Mas a mídia não perde a chance de criar um mundo cor-de-rosa lá pelos lados do Jd. Leonor.

Por sinal, o trouxa Juquinha voltou de férias, mas parece não ter mamado o suficiente no seu bezerrão. Daí que sua coluna de hoje na FSP traz isso aqui:

'Se o TCU emudece sobre as contas do Pan, a polícia paulista espera que todos se esqueçam do episódio do gás no Palestra Itália e da confusão no aeroporto de Congonhas. Há, porém, quem não esquecerá..."

Mas isso tudo foi coisa pouca, meus caros. Porque a manipulação mais contundente não vem de um jornalzinho qualquer, mas logo daquela revista abjeta da Editora Abril, que infelizmente tem ainda seus seguidores, a maior parte por pura alienação.

A ocasião é o aniversário desta metrópole que tanto amamos. A revista se põe a eleger as pessoas e lugares que são a "cara de São Paulo". Eu bem sei que a Vejinha enxerga esta metrópole não como a cidade grandiosa e multicultural que ela é, mas como um reduzido círculo imaginário com marco central no Itaim Bibi. Eu sei disso, mas daí a cometer um atentado como este logo no aniversário da cidade, vai uma longa distância.

À introdução:

"Já em 2008...
...a capital ganhou nome e jeito de mulher, que se chama Maria Vitória. Bem-sucedida em seu emprego no mercado financeiro, tem marido e filhos, torce para o São Paulo e é bem-humorada. Seu salário é daqueles de fazer inveja às amigas, mas ela gasta como se não houvesse amanhã. Enfrenta o trânsito numa Cherokee. Voltou a estudar e, agora, faz psicologia."


MEU DEUS!!! Em que mundo vivem os redatores deste lixo? E mais: que porra de cidade é esta? Alguém aí, entre os leitores deste blog e habitantes desta metrópole, conhece este lugar?

Pois é, meus caros, a revista resolve personificar uma cidade tão heterogênea como esta em que vivemos e dá até nome para a criatura. E aí dá um jeito de enfiar futilidades mil, incluindo, claro, o fato de ela pertencer à geração vitrine. Faltou só dizer que a tal madame almoça nos restaurantes da rua Amauri e "gasta como se não houvesse amanhã" nas lojas de grife da Oscar Freire.

Seguimos adiante, pois a coisa piora. Vejam vocês, caros amigos, que o estádio que tem a "cara de São Paulo" não é o municipal Pacaembu, tradicional, aconchegante e central. Não, não é. É este aqui:

"A casa do São Paulo Futebol Clube é a parte mais visível do império tricolor, que faturou cerca de 180 milhões de reais em 2008. Projetado pelo arquiteto João Batista Vilanova Artigas, o Estádio Cícero Pompeu de Toledo começou a ser construído em 1953, foi inaugurado em 1960 e ficou totalmente pronto em 1970. Maior arena de futebol particular do mundo, conta com 528 funcionários. Desde 2006, passa por reformas para se tornar um grande centro de entretenimento. Atualmente, além de um clube poliesportivo com 25 000 sócios, abriga um museu, um bar-restaurante e uma megaloja de suvenires. Neste ano, deve ganhar uma livraria, um espaço para eventos e uma escola de inglês. Em 2010, serão inauguradas salas de cinema e uma grande academia de ginástica."

O texto beira a irresponsabilidade. Nem um release da assessoria de imprensa bambi faria coisa melhor. Temos aqui coisas como "império tricolor", faturamento bruto (ah, virou empresa agora?) e "centro de entretenimento". Só se esqueceram de falar em como é que construíram aquele antro. Para completar, os redatores deste lixo usam um argumento já defasado há pelo menos 15 anos: "maior arena de futebol particular do mundo". Dá pra acreditar nisso?

A manipulação não pára por aí. Pois logo vamos descobrir que o esportista-símbolo da nossa cidade é logo o mau-caráter goleiro dos bambis, o tal Proposta do Arsenal, aquele que se ajoelha na frente dos adversários e só toma gol quando "o atacante chuta errado". Comentários adicionais são desnecessários.

Prometo que estamos chegando ao fim. E ele vem com mais uma tentativa de manipulação, desta vez bem sutil. Vejam vocês que o jornalista de TV que é a "cara de SP" é William Bonner, apresentador do Jornal Nacional. Ok, não vejo problemas. Mas o texto dá um jeitinho de ampliar o festival cor-de-rosa para seus assinantes:

"Na última visita, no ano passado, levou os filhos trigêmeos (Laura, Beatriz e Vinícius) para conhecer o centro de treinamento do São Paulo, seu time do coração."

Eu não sei onde vivem os idealizados e os redatores desta merda de reportagem. Certo mesmo é que eles não vivem na mesma que cidade que eu. A minha São Paulo não tem uma cara, mas várias. É errado sugerir qualquer cara a esta cidade, pois é provável que nenhum outro lugar do mundo seja marcado por uma diversidade tão grande como a que encontramos por aqui. Mesmo em se tratando deste povo deslumbrado da Vejinha, é chocante que tenham conseguido desrespeitar São Paulo a ponto de lançar mão dessa tentativa grotesca de imputar à capital paulista uma faceta oportunista, suja e fútil. A cidade que eles desejam felizmente não existe.

7 comentários:

Forza Palestra disse...

Mais uma sobre este assunto:

Eis que a revista sãopaulo (antiga Revista da Folha) publicou um especial no último domingo sobre o aniversário da cidade. Tudo certo e tal, mas chamo atenção para um ponto:

aqui o texto "10 problemas que atormentam toda a cidade". Lá pelo meio, temos o seguinte:

"MAIS GENTILEZA, POR FAVOR
Cada paulistano pode fazer a sua parte para melhorar o convívio na cidade:"


E aí vêm 10 dicas, entre as quais a seguinte: "obedecer a cadeira numerada nos estádios"

Dá pra acreditar?

dgrandesso disse...

Muito bom, como sempre! Já cansamos de ver essa impren$inha tentando transformar os bambis na oitava maravilha do mundo. Prova disso é que as bichas estão numa crise política sem precedentes e nem uma linha se lê na imprensa cor-de-rosa.
Quanto à cadeira numerada nos estádios, nada mais cativo do que assitir o jogo no sofá de casa. É isso o que devia pensar o imbecil que insiste nessa frivolidade. Até porque, tenho certeza que todo mundo que lê o Forza assiste o jogo na bancada, e EM PÉ!
Abraço
Maluquinho

Will disse...

PQP! Texto muito bem escrito. Tão bom quanto à análise. A internet é nosso refúgio, do contrário viveríamos desses folhetins infelizes e medíocres.

Abraços! Da-lhe Porco!!!

Jonas disse...

porraque absurda essa materia... eu nem tinha vistpo em 2009, pq tava fora do pais mas eh bom vc colocar isso de novo
maldita imprensa

Paty disse...

Pobre D. Maria Vitoria...Não poderá assistir a abertura da copa na maior arena de "futebol" particular do mundo.Nem os velhinhos da Fifa aprovaram o "espaço multiuso de entretenimento como estádio de futebol.Será que ela conseguirá chegar em sua Cherokee no Itaquerão?Será que ela sabe onde fica a zona leste?
Simplesmente ridículo!

Cesar disse...

Parabéns pelo texto, mais uma vez!!

Das comparações e avaliações sobre a São Paulo, uma coisa que eu tenho certeza que não muda na cidade a quase um século é o fato de termos uma minoria arrogante que tenta enfiar goela abaixo suas convicções e "fantasias" sobre uma maioria que realmente representa a cidade como ela realmente eh!!

Inventam modismos e "regras" a serem seguidas, querem transformar São Paulo numa cidade "chique", fresca por completa, mas graças a Deus o povo não deixa que isso aconteça...

SERGIO EMILIO disse...

Que os CIVITAS, e seus asseclas "em um surto de dignidade ponham fim a suas vidas desprezíveis".
Que bela frase. Parabéns.