25 junho 2009

Um prêmio à covardia

Confesso desconhecer a origem do tal "gol qualificado", o famigerado tento que acaba por decidir a sorte de muitos clubes em torneios mata-mata no Brasil, na América do Sul e na Europa já há alguns bons (?) anos. Eis que um dia ele surgiu sob a alegação de aumentar a ofensividade do futebol, já que, diziam, os times visitantes teriam de ir ao ataque para fazer valer o critério de desempate.

Pois bem, passou o tempo e o "gol fora de casa" acabou por instaurar um cenário todo diferenciado, em que o mais importante não é vencer, mas sim evitar o gol. Valoriza-se a defesa e não o ataque. Em alguns jogos, é quase possível ouvir a torcida, à la NBA, mandando um "Defense, defense!".

Feita a digressão, vamos ao que interessa:

Prestem atenção às entrevistas de técnicos e jogadores antes de um mata-mata de Libertadores ou Copa do Brasil. Ao falarem sobre o resultado do jogo, os mandantes terão o discurso na ponta da língua: "Não podemos tomar gol aqui". Pouco importa marcar o gol e levar a vitória; o que conta é não ser vazado no próprio estádio. Assim, temos a consagração de teorias absurdas como esta: "Empatar o primeiro jogo em casa por 0 a 0 não é mau resultado".

Não?

O mais incrível é que têm razão os que afirmam isso. Claro que seria melhor vencer e jogar pelo empate fora, mas este 0 a 0 caseiro atira para o outro lado toda a pressão de não poder levar o gol na volta. É assim que a vantagem de decidir como mandante cai por terra, e eu mesmo já prefiro que o Palmeiras receba o duelo de abertura.

E isso se dá apenas porque esta ordem, da qual o Palmeiras não soube tirar proveito contra o Nacional, permite que o seu gol tenha um peso maior logo na partida decisiva. É uma vantagem considerável, muitas vezes maior do que resolver a parada ao lado do seu torcedor. Até porque, vale repetir, o peso do "gol fora de casa" é cruel.

Aí o time da casa não ataca com medo de ser vazado no contra-ataque, o visitante também não se expõe tanto, pois não pode dar uma de louco fora de seus domínios, e temos um jogo arrastado, na base do "uma hora alguém falha e a gente chega ao 1 a 0". É quase um prêmio à covardia.

Foi assim que o Nacional eliminou o Palmeiras; foi assim que o SCCP derrubou o Vasco; foi assim que o Grêmio suplantou o Caracas. Empate fora por 1 a 1 (eis aí o famigerado) e placar em branco em casa. Avançaram os três - não sem justiça -, mas o que se viu em todos os casos foi um mandante acuado diante de um visitante desesperado para corrigir o erro 'cometido' dentro de casa.

É por isso que eu visualizei a eliminação diante do Nacional naquele gol que sofremos no Palestra - ah, o "Fator Jumar"... Depois daquilo, era como se nada mais importasse. Parecia até que um eventual segundo gol (com vitória por 2 a 1) não serviria. O "gol qualificado" desponta como
irrecuperável, quase como uma falha mortal.

Notem que eu não tiro o mérito de quem soube jogar com o regulamento. É justo, e o Palmeiras faria o mesmo se estivesse na situação contrária. O Palmeiras e qualquer outro clube. Portanto, SCCP, Nacional e Grêmio mereceram seguir em frente, mas chegaram lá apenas às custas de um regulamento que premia a covardia.

Ouso dizer que, se não fosse tão pesado este "gol qualificado", os mandantes teriam ido ao ataque e muito provavelmente teriam vencido seus jogos.
O que eu questiono é o fato de o "gol fora de casa" ter se tornado um fantasma que acaba inibindo o ataque. Ganhar é um detalhe sem grande relevância. O importante, lembrem-se, é manter o zero no outro lado do placar.

É, os pênaltis eram muito mais honestos...

***

*Quero estar equivocado, mas tive a nítida sensação, ainda com o placar em branco no Mineirão, que os marias serão finalistas da Libertadores. Porque o gol perdido pelo argentino - e também os dois do Alex Mineiro - é daqueles que rende demissão por justa causa.


*A emissora câncer demonstrou nesta noite de semifinal de Libertadores entre dois grandes clubes brasileiros, qual é a importância dedicada ao, como é que ela diz?, "produto futebol". Enquanto Cruzeiro e Grêmio lutavam para chegar à decisão sul-americana, os nossos amigos do Jardim Botânico obrigaram o povo sem-TV a cabo de SP a acompanhar um filme qualquer.

*A torcida do Cruzeiro é mesmo uma piada.

*Gol fora de casa, pontos corridos... dá pra voltar no tempo?

20 comentários:

Pedro Pellegrino disse...

Também acho ridículo esse gol fora. O verdão sempre se deu mal com esse time de regulamento. Me recordo de uma vez só levarmos vantagem, foi naquele Palmeiras X Santos , Copa do Brasil 98. Na decisão contra o Estudiantes em 1968 teríamos sido campeões se a regra fosse a de hoje, em compensação teríamos perdido do Desportivo Cali.Porra, o Cruzeiro faz um puta placar, aí o Gladiador diz;" é, não deveríamos ter tomado um gol", cacildis! Tempos loucos!.

Rodrigo disse...

Fala Rodrigão!

Falei q deixaria um comentário qualquer hora hein. Finalmente estou deixando aqui.
Concordo com exatamente tudo que foi escrito nesse post. Essa regra do "gol fora de casa" é uma das coisas mais ridículas que já inventaram no futebol. E o pior mesmo é que eles realmente acham que foi um puta negócio isso aí.
Quanto à "emissora câncer", se pelo menos eles passassem "Rambo II: A missão" seria bem melhor né?rsrsrsrs. Tô enchendo o saco!rs
Bom, esse foi meu primeiro comentário, pode ter certeza que o primeiro de muitos, pois sigo acompanhando o blog diariamente.

Abraço,

Rodrigo Perobelli

Emerson Machado disse...

Também concordo com cada linha, ao invés de se premiar quem joga bem, quem procura o gol - que é o motivo do futebol existir - premia-se quem não leva gols.
Sendo assim, nem precisava ter o outro gol, fazia um ataque contra defesa e pronto :)
Tirando a ironia, esse regulamento é ridículo mesmo, por exemplo, o jogo das marias ontem. Se terminasse 3x0 estava praticamente na final. Depois daquele golzinho do grêmio, a história já é outra, basta um 2x0 para o grêmio, que não é difícil, para ir as finais...

piazera disse...

O pior é que esta regra do gol fora de casa foi criada pra tentar incentivar o time visitante a partir tambem para o ataque ao invés de apenas se defender.

Segundo os geniais senhores que mandam no futebol. A idéia era que tivessemos grandes jogos com um maior numero de gols.

E agora que os times aprenderam a jogar com esse regulamento quem faz um gol se alegra e nenhum dos dois times ataca mais...

É como dizia Parreira (ou Zagallo eu nunca lembro) O empate é um bom resultado...


Abraço!

Nicola disse...

Pqp, concordo plenamente. Jogo é jogo, 1x0 ou 4x3 que diferença faz? Realmente os times ficam mais "inibidos", dificilmente veremos jogos nessas competições com muitos gols... E muito pelo contrário, diminui a ofensividade no futebol.

Fernando Cesarotti disse...

Na Europa isso rola desde sempre, já na primeira Copa dos Campeões (1956) o regulamento era assim. Teoricamente, seria um critério a mais para evitar a "loteria" dos pênaltis, e aí entramos na velha discussão: mas é mesmo loteria? São Marcos que o diga...
De qualquer forma, eu gosto da regra. Acho que é um componente interessante a mais no confronto que deve ser levado em conta.

Claudio Yida Jr disse...

Pois é, chego ao limite de dizer que isso é uma espécie de inversão de mando, inclusive. Porque, dependendo das circunstâncias, é muito mais vantajoso decidir fora de casa - isso tendo como base somente a frieza do placar.

E, bem frisou o Cesarotti, pênalti não é loteria. É treino e análise do adversário. E tem gol, ao contrário de um 0x0 desgraçado...

Vitor MV disse...

Eu acho isto ridículo, e Fernando com todo respeito, todas essas coisas aí que vem da Europa, eu também acho ridículo.

Gol é gol em qualquer lugar, portanto deveria valer a mesma coisa. Já pensou se no basquete as cestas fora de casa valessem mais? Meu Deus..

Abraços,

Rafael disse...

A última justificativa da Conmebol que eu ouvi para esse regulamento é a de que estavam havendo muitas decisões por pênalti. Eles mesmo reconhecem que esse sistema é rídiculo ao não utilizá-la na decisão da taça.

* * *

Minas é um caso estranho, por lá encontramos uma das mais vibrantes torcidas do país e também uma das mais apáticas.

Teve um jogador das Marias que até reclamou nos minutos finais do jogo.

Forza Palestra disse...

Pedro:

É preciso considerar que a postura do time seria diferente se o regulamento do gol fora de casa já fosse válido em outras situações. Na Copa do Brasil, o gol fora de casa vale desde sempre. O Palmeiras foi eliminado por conta disso contra o Ceará em 1994 (0 a 0 lá e 1 a 1 aqui), contra o Grêmio em 1995 (1 a 1 lá e 2 a 2 aqui) e contra o ASA em 2002 (0 a 1 lá e 2 a 1 aqui), apenas para ficarmos em alguns exemplos.
O regulamento passou a valer na Libertadores a partir de 2002 ou 2003 (não tenho certeza agora), e muito do que fizemos nas campanhas de 1999, 2000 e 2001 seria diferente com o “gol fora de casa”. Exemplos: teríamos perdido a final contra o Cali em 1999, as oitavas contra o Peñarol em 2000 e as quartas contra o Cruzeiro em 2001, mas teríamos garantido o título em 2000 (2 a 2 na Bombonera e 0 a 0 aqui) e nem precisaríamos dos pênaltis contra os gambás (3 a 4 fora e 3 a 2 em casa). Mas é tudo se...

Perobelli:

Valeu, moleque! Seja bem-vindo. E vamos combinar aquele boteco pra outra semana. Eu te ligo.

Piazera:

É este o ponto: valoriza-se a defesa e não o ataque. A regra pode ter a melhor das intenções, mas o tempo provou que ela teve o efeito contrário.

Cesarotti:

Mas você concorda que o efeito planejado acabou não se concretizando? Não parece claro que os ataques foram inibidos porque o peso deste “gol fora” é muito grande. Vale até pesquisar depois o número de gols marcados antes e depois da adoção desta regra na Libertadores.
De forma geral, eu teria de concordar com o Vitor MV, que comenta logo abaixo: se a idéia vem da Europa, eu prefiro que ela fique por lá mesmo.

Craudio:

É inversão de mando sim, japonês. Tá valendo mais a pena decidir fora...
Vamos fazer esse teste no nosso campeonato de WE. Eu vou jogar na retranca total em casa. Quero mais é ficar no 0 a 0.

Rafael:

Pois é, o fato de a regra não valer para a final é bem demonstrativa disso. Porque o objetivo da Conmebol é, ao menos na final, preservar o direito do clube de melhor campanha. E parece evidente que o “gol fora de casa” acaba por tirar essa vantagem nas fases anteriores.

ricardobmonteiro disse...

Mano nunca gostei dessa merda, acho justo somar os gols, deu soma igual penalti e pronto.
Agora inventam essa merda, mas para um time que já foi eliminado, com melhor média de gols, melhor classificação, melhor tudo, mas que tomou um cartão vermelho, porra depois daquilo vale tudo.
Outra coisa que queria te perguntar, o que vc achou dessa nova lei que não precisa de ser Jornalista formado, para se intitular jornalista, e fazem com que caras como o Inho, um motoboy, ache que é jornalista e encha de merda nossos ouvidos.

Abraços e até domingo.

Vamos ver se com os sardinhas o Keirrison faz gol, já que naum vale muita coisa o jogo e em decisão ele treme.

Zoinho

João Medeiros disse...

O povo sem-TV a cabo do RJ viu o mesmo filme qualquer que os amigos "do outro lado da Dutra"...
*A torcida do Cruzeiro é mesmo uma piada.

*Gol fora de casa, pontos corridos... dá pra voltar no tempo?

Aonde eu assino?

João Medeiros disse...

Pra cornetar o resto do texto, repito o que disse no post que antecedeu o Palmeiras e Sport pela Libertadores, lá no "Aqui é Palestra", do meu amigo Júnior:

"Não levar gol aí é fundamental. Aliás, por conta desse regulamento, não levar gols em casa é tão ou mais importante que fazê-los."

O futebol tá do avesso amigo...

Roberto Kamarad disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Roberto Kamarad disse...

Disse tudo...
ontem no jogo do Cruzeiro, os discursos dos cruzeirenses eram sempre os mesmos: "não podemos tomar gol"

abs

paulo.cassaro disse...

foi o q o gladiador falou no final da partida "tomamos um gol....".
a torcida das marias me lembra uma certa torcidinha da moda.
gozado né.

Marco Freitas disse...

O mais ridículo é que essa regra, que valeu no torneio todo, na final não vale!

Palestra1914 disse...

Eu ia dizer o que o amigo Marco Freitas já disse acima.

E complemento isso tudo dizendo que essa decisões deveriam , antes dos pênaltis , haver uma prorrogação. Afinal , futebol é bola rolando e o pênalti é o último recusro que deveria ser utilizado.

E depois de assistir a Estudiantes X Nacional ontem , percebi que a ferida continua aberta. Como estava fácil chegar a essa final...

Abraços

Bruno D'Angelo.

Forza Verde disse...

Finalmente se ligaram pra que serve:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u586771.shtml

Dispensa maiores comentários.

Blog do Meu Saco disse...

Fora que o regulamento pune equipe que, em outro cláusula, diz beneficiar: a melhor campanha faz o segundo jogo em casa num torneio cujo regulamento facilita a vida de quem joga a primeira em casa.