13 março 2012

Carta aberta aos dirigentes

Coube ao grande palestrino Felipe Giocondo a tarefa de consolidar em um único (e primoroso) texto algumas das muitas reclamações constantes do torcedor (aquele que vai ao estádio) palmeirense. À luz do tratamento concedido aos que foram no domingo ao estádio Santa Cruz, a carta foi endereçada aos senhores Arnaldo Tirone e Roberto Frizzo, homens que têm deixado como principal legado o desrespeito ao palmeirense da arquibancada. Chega de escrever; vamos à carta (que obviamente ainda não foi respondida pelos dirigentes):


Presidente Arnaldo Tirone,

Como o torcedor, em muitos casos, tece críticas injustas a pessoas que nem sempre têm o poder de agir sobre a situação quero que leia este e-mail por um outro prisma. Entenda a situação e de que forma o senhor, ou seus dirigentes, podem contribuir para uma relação um pouco mais respeitável com o torcedor palmeirense.

Moro em São Paulo e fui ao jogo em Ribeirão Preto domingo. Como muitas vezes vou, como muitos outros também, para muitos jogos. Da alegria de ver o Marcos pegar 3 pênaltis em Recife em uma terça-feira a noite, à decepção de assistir a uma goleada impiedosa em Curitiba. Enfim, seguimos:

Compramos o ingresso para a partida e já ali notava-se a desorganização. Filas intermináveis para entrar no estádio. Faltava cerca de uma hora para o início da partida e havia ali, por baixo, 5 mil torcedores dos nossos. As filas proliferavam em ramificações intermináveis e encontravam-se todas no portão de acesso, o único, com 4 catracas.

O tempo passou e poucos minutos antes do início da partida a coisa estava pronta para descambar. Pouquíssima gente havia entrado, os torcedores começaram a se revoltar e muita gente, repito, MUITA GENTE, foi embora sem assistir ao Palmeiras. Com o jogo já iniciado tentei outras alternativas e consegui entrar, lá pelos 15 minutos de jogo, pelo portão das numeradas, graças a um PM que liberou todo mundo que estava ali, sabedor da catástrofe que poderia ocorrer.

Graças a Deus e à boa educação dos palmeirenses, isso não ocorreu. Mas chegamos perto. Ainda mais com a cavalaria da PM montada em meio à multidão espremida e desconsolada.

Imagine a cena. Te mando até umas fotos no anexo (são fotos do exato instante em que o juiz apitava o início da partida; pouco depois que eu te liguei, recorda-se?).

O que você poderia fazer, pode estar se perguntando agora?

A primeira coisa que um presidente que zela pelo clube e seu maior patrimônio, a torcida, faria seria: jamais assinar um regulamento que prevê apenas valor mínimo de ingresso, não o máximo. Percebe como a coisa é feita na má intenção mesmo? Menos que R$ 30 ninguém pode cobrar, mas o limite é o céu, meu amigo. R$ 90 aqui, R$ 60 em Ribeirão, sabe-se lá quanto nas finais. Todo mundo ganha, só perde o torcedor.

E isso não é nem o pior. Tem coisas ainda mais escandalosas: contra o Bragantino neste campeonato, por exemplo, o torcedor da casa poderia comprar um carnê para todos os 9 jogos em casa por pouco mais de R$90 e ainda ganhava uma camisa oficial do clube. Mas para nós, visitantes, restava os ingressos únicos de R$ 40. E veja a crueldade em saber que até o poderoso Bragantino têm carnê e o Palmeiras não.

Voltemos a Ribeirão Preto: 5 mil palmeirenses do lado de fora, com ingresso, sem conseguir acesso ao estádio. Lá a gente descobre que torcedor do time da casa, através de uma artimanha sem vergonha, pode pagar R$ 30. Fere estatuto do torcedor e tudo mais, mas não só isso: esfregam suas administrações vagabundas na cara dos torcedores de outros times, que sustentarão times e dirigentes medíocres do interior em campanhas degradantes.

Lá pelas tantas, acho que com 20 ou 25 minutos do primeiro tempo parece que liberam o portão. Entra muita gente, talvez sem nem sequer apresentar ingresso. Fizeram o correto, com atraso, mas alguém teve a decência de dar um jeito naquela bagunça.

Me pergunto o que deve estar ocorrendo agora, nos bastidores. Imagino que o Palmeiras protocolará uma reclamação oficial em relação ao tratamento dado aos seus torcedores. Penso, também, que enviaremos um ofício a FPF para que determine, desde já, o teto a ser cobrado no valor dos ingressos. Vou além: aproveitando a saída de Ricardo Teixeira e a chegada de um novo (?) presidente na CBF, um telefonema para avisar que esta putaria toda acabou e que, a partir de hoje, o torcedor vai ter ao menos um tratamento digno.

Porque pega mal lançar uma vaquinha pra contratar jogador e quando queremos a reciprocidade de dedicação e atenção, tomamos uma dessa na cara, não concorda?

Se me permite a sugestão, vou além: caso isso volte a ocorrer em qualquer um destes estádios de times com dirigentes vagabundos, ligue imediatamente para o cartola que estiver acompanhando o clube (ou o César Sampaio) e informe que o clube não deve entrar em campo enquanto seus torcedores não tiverem o tratamento adequado fora de campo. Melhor ainda seria que o senhor, na condição de presidente de um dos maiores clubes do mundo, estivesse pessoalmente no estádio. Mas, como tenho notado, ou melhor, como não tenho notado sua presença nas viagens do time, pode tocar este ponto por telefone mesmo.

Além disso, vale a recordação: o Palmeiras é um clube da capital, sediado na capital e com torcedores no Brasil inteiro. Não cola o argumento de que "os outros merecem ver o time em campo também" quando se manda um jogo pro interior - até mesmo porque, fosse por isso, jogaríamos no nordeste do país, no norte do Paraná e em inúmeras outras regiões com grande concentração de torcedores - não apenas na temível Presidente Prudente. O argumento da maior arrecadação também é pra lá de falacioso: Palmeiras e São Paulo gerou uma renda inferior a Palmeiras e São Caetano. Contra o Santos, no ano passado, em uma desesperada tentativa de arrecadar dinheiro, liberamos o tobogã inteiro para eles ao passo que para ir a Vila brigamos por 700 ingressos. Isso mesmo presidente, 700 ingressos. Ou 15 ônibus. Aliás, o senhor já tentou ir a Vila Belmiro como visitante?

Entendo que pode parecer um pedido muito difícil que o torcedor tenha o direito de assistir a um jogo do seu time. Especialmente aquele que viaja não sei quantos quilômetros para isso. As crianças que sonham em ver seus ídolos em campo e voltam desconsoladas pra casa, sem conseguir sequer acesso ao estádio. Ao pai que sacrifica uma boa parte do seu salário em ingressos e é tratado como gado. O torcedor que vai a todos os jogos do ano, inclusive naqueles que nem dirigente aparece, mas que não pode assistir a um grande clássico porque um prefeito de alguma cidade qualquer paga um lanchinho e uma cama de hotel para os jogadores.

E eu gostaria, também, que tratasse com a devida atenção da próxima vez que eu ou qualquer torcedor, vendo uma situação daquelas que ocorreu, te ligasse. Eu também preferiria nem ter seu número, nem ter a necessidade de fazer isso. Mas já que ninguém resolve nada, acho bom que saiba direto da fonte, sem intermediários.

Por falar em torcedores, estes animais sempre dispostos a sofrer pelo clube, note como são atenciosos: já hoje recebi e-mail de amigos que notaram que pelo quarto ano seguido o Palmeiras fará o último jogo do Brasileiro na condição de visitante. Aliás, no Paulista somos visitantes do Santos há 3 anos seguidos também, sabia? Note, também, que o Palmeiras enfrentará 3 rivais cariocas na sequência, que praticamente todos os mandos de Palmeiras e Corinthians coincidem (e usamos mesmo estádio, ou seja, em algum momento vamos começar a peregrinação sabe-se lá pra onde). Atenção especial a rodada 37, que pode ser decisiva.

Escute os torcedores, presidente. É disso que vive e viverá o Palmeiras, eternamente.

Atenciosamente,

Felipe Giocondo

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Fotos enviadas pelo Felipe Giocondo e pelo Anderson Luiz Saponi - que chegou ao estádio com ingresso às 14h30 e só conseguiu entrar com o jogo em andamento:



17 comentários:

Emerson Favaro disse...

Brilhante texto Giocondo, para o sempre ótimo blog do nosso amigo Barneschi. Parabéns pela disposição, cuidado e atenção em defender esse direito tão pouco valorizado pelos crápulas que dirigem o futebol, e o Palmeiras.

Forte abraço,

Emerson

Luiz Felipe disse...

Um dos textos mais lúcidos e diretos que li nos últimos tempos... Sei que o texto não é seu, mas acompanho seu blog há uns bons 4 ou 5 anos e assino embaixo boa parte do que escreve. Esperemos uma resposta no mínimo decente daqueles que detém o poder lá dentro, de preferência do presidente, a quem é endereçada a carta.

Abs
Luiz Felipe

Rodrigo disse...

nos estavamos em um grupo de 15 palmeirenses, meu amigo foi tirar foto do acontecido e foi ameaçado pela PM de não entrar no estadio por que estava tirando foto

José Guilherme Lima disse...

Contra um texto brilhante e duas fotos auto-explicativas... precisa dizer mais!

Parabéns, Felipe, e parabéns, Barneschi!

Gustavo disse...

Parabéns pela atitude Giocondo. O torcedor é quem alimenta o "grande negócio" do futebol. Precisamos entender isso e exigir o devido respeito e condições mínimas nos estádios.

Marcel Romanovas disse...

Alguém por favor, conseguiria fazer este texto chegar a Jorge Valdivia e cia. além de chegar aos dirigentes ?

Bruno Ricardo SEP disse...

Sensacional!

Anônimo disse...

Parabénspelo texto, realmente muito bom!!!
Estava no jogo contra o Stos onde o Tobogã foi dado ao visitante e me pergunto até hoje por quê não fazer a 5 ou 10 reais pro torcedor do PALMEIRAS? Dar "nosso" tobogã aos caiçaras, REVOLTA (e muito!) quem já esteve na Vila e teve que se fuder naquele lugar...

Acrescentaria ao texto o constante desfalque da nossa principal organizada na arquibancada. Quem gira a catraca sabe a diferença que ela faz...

COLORAL

Enrico disse...

Realmente ótimo texto, deveria ser divulgado de forma maçica por todos os sites da mídia palestrina (já que esperar algo da impren$$a é utopia)e inclusive ser abraçado até mesmo pelas torcidas rivais que sofrem igualmente com este descaso em relação aos assíduos frequentadores de estádios.Abraço e parabéns pela publicação da carta Barneschi!
Enrico

Anônimo disse...

Grande texto.

Por pouco, por muito pouco, a confusão não se tornaria algo mais sério.

...

Alguém encontrou algo relatando tal tumulto em um dos meios de comunicação? Eu não vi nada, só aqui. Que coisa.

Leonardo Nakamura

Anônimo disse...

Grande texto.

Por pouco, por muito pouco, a confusão não se tornaria algo mais sério.

...

Alguém encontrou algo relatando tal tumulto em um dos meios de comunicação? Eu não vi nada, só aqui. Que coisa.

Leonardo Nakamura

Barneschi disse...

Respondendo: é evidente que nenhum veículo de comunicação tradicional deu atenção ao assunto. Afinal, esses jornalistas não vão a estádios e não sabem o que se passa dentro ou fora deles. É o tipo de matéria que deveria ser exibida com destaque, mas tem certos jornalistas por aí que preferem fazer palhaçada.
Abraços

Celso de Campos Jr. disse...

Não dá para se fingir de morto diante de uma situação grave como essa, especialmente depois de um texto ponderado e educado como este. Com a palavra, o sr. Arnaldo Tirone.

Felipe Giocondo disse...

Apenas atualizando: nenhuma resposta até o momento. aguardemos.

FabioTremems disse...

Excelente texto!
É uma pena, mas alguma coisa me diz que a carta será simplesmente ignorada pelo Banana. Por isso acho muito válida a ideia do Enrico de que esse texto seja divulgado por toda a mídia palestrina. Fazendo pressão, uma hora os caras terão que ceder.
A imprensinha não tem interesse nenhum em mostrar o sofrimento do torcedor que acompanha seu time nos estádios. Na verdade, o que eles mais queriam era mesmo uma confusão generalizada. Porque assim, seria mais fácil meter o pau e pedir para se manter punições contra a organizada, que eles adoram chamar de marginais...
Se a confusão se consuma, já podemos imaginar o tipo de manchetes do dia seguinte!

Outra coisa: o estatuto do torcedor só entra em prática mesmo pra punir o torcedor???

Anônimo disse...

Estive no jogo, e sinceramente foi ridícula a organização do mesmo. A diretoria que organizou tudo, deveria ser punida, tamanha a falta de despreparo e controle.

Além disso tudo ainda havia a PM, enquanto estava na fila para comprar os ingressos, um senhor se dirigiu ao PM que estava fazendo guarda e segue o diálogo que ouvi:
- É verdade que vai parar de vender os ingressos as 15h?
- Sim. - Foi a resposta do PM
- Poxa, mas tem muita gente na fila.
- Que comprassem antes, vendeu a semana inteira.
- Mas tem muita gente que é de outras cidades, como eu.
- Que comprassem pela internet
- Mas não havia essa possibilidade
- Que comprassem antes.
- Poxa, mas e essas pessoas que ficaram na fila por tanto tempo? Pessoal vai ficar decepcionado e até bravo.
- Sem problemas, bala de borracha e cassetete em todo mundo.

É esse o pensamento do soldado. Estava no meio do empurra-empurra que se instaurou, para entrada no estádio. E fiquei perplexo ao ver que a PM nada fazia. Vendo a reação deles, e tendo ouvido o que ouvi antes, a impressão era que o que eles realmente queriam, era que a coisa toda desandasse e que pudessem de fato usar "bala de borracha e cassetete em todo mundo".

Mas o que me deixa indignado, é quem organiza o evento fazer uma coisa dessas. Haviam milhares de coisas que poderiam ser feitas, para evitar qualquer tumulto e garantir que todos pudessem entrar no estádio e assistir ao jogo tranquilamente. Mas não, só querem ver a cor de nosso dinheiro, e nossa integridade e segurança que se explodam. Mas infelizmente, somos sempre tratados como animais.

cesar disse...

Após ler todos esses relatos de quem esteve em Ribeirão, não duvido que a passividade da PM na organização do jogo tenha sido proposital, para que um tremendo tumulto estourasse e eles pudessem colocar a culpa na Mancha, para punir a torcida novamente!

Tudo isso acontece uma semana depois de a torcida ser liberada novamente, é muita coincidência, principalmente se tratando de torcida do Palmeiras...