13 agosto 2013

Crônica de um país às avessas

Sábado de manhã. O sujeito acorda muito cedo e vai comprar os suprimentos todos: salsicha, linguiça calabresa, pernil, repolho, alface, tomate, milho, batata, queijo, cerveja, refrigerante e mais algumas dezenas de itens - para dar conta da variedade do cardápio. Faz lá um investimento considerável, enche o banco traseiro do carro e vai para casa. Daí então que ele e a mulher, dois abnegados, esquecem a correria que foi a semana e se põem a preparar aquilo tudo o que precisa estar pronto antes da hora: basicamente o pernil, uma vez que a calabresa e a salsicha do hot dog podem ficar para mais tarde. Tudo arrumado, botijão de gás no carro, eles seguem, na parte da manhã ainda, para o estádio municipal. Tudo para garantir um lugar. Chegam, estacionam no meio-fio da via que contorna a praça Charles Miller e lá se instalam.

(Sabem como é, a repressão da gestão Kassab marginalizou essa tão nobre atividade, mas eles insistem em querer prestar um serviço ao torcedor e, de quebra, completar o orçamento familiar.)

15h.

Vejam a situação:

-De um lado, temos alguém que precisa levar dinheiro para casa, para sustentar sua família. O que ele faz? Monta uma cozinha improvisada no porta-malas do seu carro e segue para o estádio para vender hot dogs e sanduíches de calabresa e pernil. O cara quer apenas trabalhar. Muito honesto, não?

-De outro lado, temos o torcedor: ele chega ao Pacaembu e se depara com a quase inexistência de opções de alimentação. Não há bares, não há restaurantes, não há qualquer coisa que preste. Restam os ambulantes (para beber) e as barraquinhas de lanche improvisadas em carros (porque as de verdade foram proibidas pelo prefeitinho vagabundo que infernizou a nossa vida por quatro anos).

A equação é (ou deveria ser) muito simples, senhores:

Você junta a fome com a vontade de vender. Junta o consumidor com o comerciante. Junta a satisfação do torcedor com a necessidade do sujeito que abdicou do seu sábado de folga para conseguir uns trocos a mais para sustentar a família. Junta oferta e procura.

Em outras palavras: o torcedor faz questão da presença dos chefs improvisados por ali. E os chefs improvisados dependem da presença do torcedor. Em não havendo quem se incomode - e efetivamente não há -, temos uma situação de harmonia pouco comum nesta metrópole.

Há uma lacuna oriunda da ação do Estado (a proibição das barraquinhas de lanche na praça Charles Miller deixou o torcedor sem ter o que comer antes ou depois dos jogos) que é preenchida pela ação de gente que só está querendo trabalhar. Todos saem satisfeitos, ninguém reclama, a vida segue...

Acontece que, no meio disso tudo, há um agente desestabilizador: a Guarda Civil Metropolitana. Porque os tão ocupados guardinhas de parque resolvem não permitir que ninguém mais trabalhe - como se já não bastasse eles. E é aí que começa o "rapa".

Por quê?

...

Lembro-me de ter ficado feliz por, no nosso jogo anterior no Pacaembu, ver muitos desses carros estacionados na rua lateral da praça. Sempre alertas contra os GCMs, é bem verdade, mas lá estavam eles. Eu mesmo comi um hot dog antes do jogo.

No sábado agora, no entanto, a repressão veio com tudo. Foi tudo premeditado, em uma ação disposta a desmantelar o esquema dos trabalhadores que estavam ali prestando um serviço às mais de 30 mil pessoas que se fizeram presentes na cancha municipal. Guinchos vieram de todos os lados para rebocar as vans e mesmo carros menores que faziam as vezes de lanchonetes. Pessoas foram presas, perderam tudo o que compraram honestamente, tiveram de enfrentar sabe-se lá o quê para recuperar os próprios bens - se é que conseguiram recuperar...

Foi uma cena das mais deprimentes. Pessoas foram presas por nada, tiveram cerceado o direito de trabalhar, foram vítimas do abuso de sub-autoridades que só fazem atrapalhar o andamento da sociedade. E o torcedor, sempre ele, nunca é consultado e só sofre com as decisões estapafúrdias do poder público.

Enquanto isso, alguns metros para cima - e por todos os cantos -, flanelinhas vagabundos não enfrentavam qualquer dificuldade para extorquir os mesmos torcedores que são impedidos de comer no estádio. Porque à GCM interessa prender trabalhadores e deixar os bandidos livres.

Pobre do país que pune as pessoas por quererem trabalhar. Pobre do país que limita as opções da população sem consulta prévia. Pobre do país que inverte os valores de maneira tão vexatória. Pobre do país cujo Estado interfere de maneira tão abrupta e indevida nos direitos de seus cidadãos.

Brasil, um país às avessas.

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Cheguei ao Pacaembu com pressa no sábado e acabei não tirando fotos da situação toda. Mas vi que alguns torcedores fotografaram a situação toda. Se alguma boa alma tiver essas imagens, me mande, por favor, e eu publico aqui.

21 comentários:

Anônimo disse...

E eles são coniventes com o preço abusivo cobrado dentro do estadio, aonde se paga 5 reais para um pão com salsicha e um simples churros.

Luiz Fernando Sanchez disse...

È isso mesmo Barneschi,temos um prefeito novo e essa porra ainda não foi resolvida,já estou de saco cheio dessas palhaçadas,já não basta essa porra de ter mais PMs do que torcedores nos estádios,tem que aguentar esses GCMs que tem menos poder que vigilante de bairro,tirando trabalhadores das ruas e deixando esses vagabundos flanelinhas trabalharem livremente,quem está por trás disso?Todas essas porras são massa de manobra de alguma instituição superior,toda vez que vou no estádio já sei que vou ver uma excrescência e vou ficar puto,por isso tento não ligar mais pra nada,mas é difícil demais deixar de lado absurdos como esse.

Ainda sobraram alguns vendedores de lanche na subida para a Dr.Arnaldo no fim do jogo,só não sei se depois eles foram rebocados também

Carlos Z/S disse...

Boa Barneschi, muito bem observado.

Aliás, no jogo contra o Icasa, eu quase fui atropelado por uma viatura desses guardinhas de estátua quando atravessava a rua (na faixa) próximo ao estádio.

O infeliz que estava ao volante jogou o carro em cima de mim e o parceiro que estava no banco do passageiro ainda me xingou. Por nada.

O poder público no Brasil só existe para embaçar a vida do cidadão.

Anônimo disse...
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rodrigo disse...

Eu mesmo saí do sul de MG com meu irmão, um tio e dois primos para ver o jogo.
Chegamos com fome e nada de ver nada pra comer do lado de fora. Só pro lado de dentro o "lanche padrão fifa" do Municipal.
E o que mais me irritou. Meu irmão é cadeirante. Ocorre que algumas vagas reservadas estavam ocupadas por carros sem a devida sinalização que comprova que é usuário (provavelmente vagas vendidas pelos malditos flanelinhas).
Pois bem: ali mesmo próximo ao portão 13 vejo um desses vagabundos vendendo uma outra vaga. Pergunto o valor: R$ 50,00!! Quase mandei o cara a merda. Expliquei que estava com cadeirante, que precisava parar ali por perto, pra facilitar o acesso. Acabamos fechando por R$30,00. Mas não me conformo que não há fiscalização pra esse tipo de vagabundos que ficam extorquindo nosso dinheiro...

Anônimo disse...

Sem falar nos cambistas, que normalmente, já na Major Natanael, começam a abordar os motoristas que passam por lá. E alguns taxistas que, na saída, perguntam "para onde você vai?", provavelmente para se recusarem a fazer uma corrida curta. Todos esses agem livremente, e não acontece nada.

Anônimo disse...

Incoerência total desses governantes. É tudo farinha do mesmo saco. Um bando de sem-vergonhas vagabundos que só querem resolver o problema deles, ou seja, como roubar dinheiro público sem ser descoberto. Tem que dar o grito mesmo.

Carlos Rocha disse...

Realmente faz muita falta. Comenta-se sobre a questão da higiene. Não seria o caso de orientar os comerciantes? A última vez que fui ao estádio um copo de refrigerante dentro do estádio custo o preço de 2 litros. Além dos flanelinhas tem também os cambistas. Prefeito Haddad tá na hora de liberar.

Fernando Trevisan disse...

Espero um dia conseguir entender por que não conseguem prender os malditos flanelinhas e cambistas que desde sempre habitam o entorno dos nossos estádios...

Anônimo disse...
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Zoinho disse...

Uma vez os GCM embaçaram no nosso churras, falaram que não podiamos usar espaço público e tal.
Quase arrumamos uma treta com eles quando um tiozinho que tem problema em umas das pernas, sempre esta la´vendendo suas brejas, os cara começaram o rapa e guardamos as coisas dele nos nossos carros, os GCM ficaram putos !!!

marcelo disse...

Barneschi,

Concordo totalmente com voce! É um absurdo a movimentação livre dos dos flanelinhas e guardas de rua vagabundos que loteiam as ruas publicas proximas do estadio. Isso sem falar nos cambistas que estão presentes em absolutamente TODOS os jogos.

Nicola disse...

No último jogo contra o Bragantino, fui com meu pai e saímos pela lateral do estádio, pela saída de cima da arquibancada amarela... Viam-se vários carros com os tiozinhos vendendo pernil, hot dog, outros vendendo espetinho de carne, tudo na maior tranquilidade.

Mas tem jogos onde acontece exatamente o que você relatou, e além de indignação, fico confuso também, sabendo que em algumas ocasiões esses vagabundos da GCM simplesmente não fazem nada, e em outras fazem. Deve rolar algum tipo de "aluguel" pra fazer comércio em dias de jogos, com certeza. Ou pagam o que pedem, ou tem rapa. Tudo leva a crer que é dessa forma.

Anônimo disse...

GCM é aquele individuo que queria ser PM, mas nao passou no concurso publico estadual, então esse individuo resolveu fazer um concurso mais facil, menos exigente e mais comodo

GCM é um PM frustrado

Enrico disse...

A ferida é essa mesma, ou melhor, mais uma entre tantas deste corpo cheio de chagas no qual se transformou nosso futebol. Muito fácil para as OTORIDADES enquadrar vendedores de pernil e breja, na sua enorme maioria pessoas de bem e que só estão defendendo um turuzinho, na hora de enfrentar a bandidagem zé ruela personificada nos flanelinhas e cambistas aí falta culhão, ninguém vê nada... tudo para para preservar os preços escorchantes dentro do estádio nos deixando sem alternativas!

Anônimo disse...

E na metade do primeiro tempo, passa um grupo de PMs perto do alambrado e pede pra abaixar um pouco a faixa do São Marcos pq estava mto alta. Só rindo mesmo...

Att.
Raoni Machado

claudio longo disse...

Boa noite a todos, um copo de refrigerante com 300 ml R$ 5,00, um cachorro quente mal feito R$ 6,00, uma cerveja sem álcool, R$ 5,00, não mais nada para declarar!

Leonardo Santos disse...

Cara, você disse tudo.

Yuri Torres disse...

Caro, Barneschi, tenho 23 anos de idade, sou novo ainda, mas chego a quase chorar de saudades das barraquinhas de lanche de pernil em frente ao Palestra, onde frequentava incansavelmente com meu pai e tios. Agora cobrar o preço de um carro em um hot dog seco dentro do estádio eles não consideram como crime.

Insanna disse...

Saudoso "Pernil do Bigode", o melhor pernil do futebol de SP, sempre na Rua Caraíbas... e dizem que dentro do novo Palestra vai ter um Burger King gigantesco... por mim deveria ter é uma lanchonete top para o Bigode, ai sim... Saluti

Leonardo disse...

Está tudo errado. Não por acaso estas coisas acontecem, vivemos em um país infestado por ''valores'' incorretos.

Leonardo Nakamura